Qual era o som dessas cornetas de concha de 6 mil anos? Novo estudo descobriu; ouça

há 1 mês 32
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Um estudo publicado nesta terça-feira (2) na revista científica Antiquity oferece o retrato mais completo já feito sobre misteriosas trombetas de concha usadas há cerca de 6 mil anos na região da Catalunha, na Espanha. Ao todo, oito instrumentos neolíticos foram analisados acusticamente por arqueólogos e músicos, o que permitiu reconstruir a paisagem sonora desse período pré-histórico.

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Os resultados confirmam que esses objetos, feitos de conchas da espécie de molusco Charonia lampas, eram capazes de produzir níveis de pressão sonora sem precedentes entre as tecnologias sonoras conhecidas do período. Sua potência pode ter possibilitado a comunicação por vários quilômetros — algo essencial para sociedades agrícolas densamente povoadas, espalhadas por planícies férteis, vales e áreas montanhosas do nordeste ibérico.

As trombetas de concha foram encontradas em cinco sítios neolíticos, todos localizados entre as regiões do baixo Llobregat, a depressão pré-costeira do Penedès e as minas de Gavà. Trata-se de uma das maiores concentrações conhecidas de Charonia lampas modificadas.

Segundo a professora Margarita Díaz-Andreu, da Universidade de Barcelona, esses artefatos sempre levantaram suspeitas de uso musical. “Elas tinham os ápices removidos, o que levou alguns investigadores a sugerir que poderiam ter servido como instrumentos musicais”, explica, em comunicado à imprensa.

O estudo confirma que as conchas foram coletadas após a morte dos moluscos, reforçando que seu valor não estava no alimento, mas no som. Como esses sítios ficavam relativamente próximos uns dos outros (menos de 5 km, em alguns casos), sugere-se que as trombetas serviam para coordenar comunidades vizinhas, trabalhadores agrícolas dispersos ou grupos atuando dentro das galerias estreitas das minas de Gavà, onde era extraída a gema variscita, a qual era usada na confecção de adornos prestigiados.

Testes acústicos inéditos

Miquel López-Garcia, coautor e trompetista profissional da Universidade de Barcelona, executou as sessões de teste com extremo cuidado, produzindo gravações hoje disponibilizadas pelos autores. A partir delas, foi possível medir a potência sonora e a versatilidade das trombetas. Veja vídeo:

Qual era o som dessas cornetas de concha de 6 mil anos? Novo estudo descobriu; ouça

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No estudo, os investigadores afirmam que a característica acústica mais marcante do instrumento é a sua altíssima intensidade do som. Aplicar técnicas modernas como bending (curvar o som) ou hand-stopping (bloquear parcialmente a abertura com a mão), porém, reduziram energia e, portanto, seriam contraproducentes para sinalização. O mesmo vale para a emissão de harmônicos superiores, que exigem mais esforço e resultam em menor volume.

Estudos citados pelos autores sugerem que instrumentos desse tipo podem ser ouvidos a grandes distâncias, inclusive através de barreiras ou em terrenos acidentados.

O padrão espacial reforça essa interpretação. A região do Penedès (onde se situam os sítios de Mas d’en Boixos e Cal Pere Pastor) apresentava, segundo pesquisas anteriores, alta densidade populacional durante o Neolítico. A curta distância entre assentamentos sugere intensa comunicação e cooperação, potencialmente mediadas pelas trombetas.

 Miquel López-Garcia e Margarita Díaz-Andreu Fotografias de trombetas de concha neolíticas da Catalunha que ainda produzem som hoje: Mas d'en Boixos 332-1-3 (a) e 355-1-51 (b); Mines de Can Tintorer 384-62 (c), 4003-1 (d), 5-212 (e) e 408-24 (f); Cova de l'Or CO221.9 (g); Cal Pere Pastor E17-UE3038 (h) — Foto: Miquel López-Garcia e Margarita Díaz-Andreu

Situações semelhantes são propostas para a planície de Barcelona (onde foi encontrada a peça de Espalter) e para contextos montanhosos, como o caso da Cova de l’Or. Nas minas de Gavà, por outro lado, a hipótese é de múltiplas funções: comunicação subterrânea, marcação de turnos, avisos de segurança e, possivelmente, usos ritualizados ligados à extração da variscita. Se confirmada, essa versatilidade faz das trombetas um indicador arqueológico de atividades complexas.

Outro debate aberto pelo estudo diz respeito à escolha das conchas. A frequência fundamental depende diretamente do comprimento do instrumento. As peças estudadas apresentam tons entre 395 Hz e 471 Hz — mais altos que os de trombetas de concha de outras partes do mundo.

Considerando que a remoção do ápice reduz de 15% a 25% do comprimento, os instrumentos originais mediriam entre 180 e 260 mm, valor típico de Charonia lampas de porte médio. Como conchas maiores existem, e como as médias oferecem melhor equilíbrio entre potência e portabilidade, os autores consideram plausível que os neolíticos tenham selecionado intencionalmente exemplares de tamanho ideal para uso, e não apenas aproveitado para tocar o que havia disponível.

Arte além da funcionalidade

Embora a função principal pareça ter sido a sinalização, os testes revelaram um lado inesperadamente musical desses instrumentos. Os exemplares mais bem preservados são capazes de produzir até três notas estáveis, com possibilidade de modulação tonal que chega a um intervalo de terça maior descendente.

 Miquel López-Garcia e Margarita Díaz-Andreu Detalhes do corte apical das trombetas de concha 355-1-51 de Mas d'en Boixos (esquerda) e 408-24 de Gavà Mines (direita) — Foto: Miquel López-Garcia e Margarita Díaz-Andreu

Além disso, os instrumentos respondem bem a variações de dinâmica e articulação, permitindo ao tocador experiente criar frases completas, sinais diferenciados e até pequenas melodias. Experimentos adicionais mostraram ainda que vibrações labiais mais relaxadas podem gerar frequências inferiores à fundamental — sons mais rugosos, menos intensos, mas com valor expressivo.

Os pesquisadores ainda testaram o uso das conchas como amplificadores ou modificadores de voz. A técnica já foi atestada em equipamentos de outras culturas, mas, especificamente nas peças catalãs, ela produziu resultados bastante limitados e pouco audíveis.

Paisagem sonora neolítica

Ao todo, 12 trombetas relativamente completas foram identificadas nos cinco sítios catalães — oito delas ainda podem ser tocadas. Essa amostra permitiu aos arqueoacusticistas reconstruir parte da paisagem sonora neolítica, sugerindo não apenas funções práticas na comunicação e na coordenação das pessoas, mas também socialmente estruturantes.

Dessa forma, o resultado é um raro encontro entre arqueologia, acústica e experimentação musical. Graças aos testes realizados, hoje é possível ouvir o eco das cornetas que, há seis milênios, atravessavam campos, vales e cavernas da Catalunha neolítica.

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