Paulista perdeu braços e pernas após contrair bactéria: "tinha menos de 1% de chance de sobreviver"

há 1 mês 25
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“O que aconteceu com você?” é uma pergunta que Pedro Pimenta, de 34 anos, já ouviu várias vezes na vida. Segundo ele conta, muitos presumem que a condição de tetra-amputado está relacionada ao nascimento sem os quatro membros, ou ainda a algum acidente grave. Mas a história foi diferente.

Pedro sobreviveu a um quadro de meningococcemia, forma rara e extremamente agressiva de infecção pela bactéria Neisseria meningitidis, ou meningococo. Enquanto cerca de 70% das infecções meningocócicas se manifestam como meningite — quando apenas as meninges são afetadas —, a meningococcemia compromete a corrente sanguínea, evolui rapidamente e oferece alto risco de morte.

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Quando ficou doente, em setembro em 2009, Pedro levava uma rotina exaustiva de curso pré-vestibular, mas era saudável e praticava esportes. "Eu não imaginava, no auge da arrogância de um jovem de 18 anos, que algo grave poderia acontecer comigo. Eu pensava que coisas graves aconteciam com pessoas mais velhas", relatou, durante evento sobre meningite para a imprensa feito no final de novembro pela farmacêutica GSK.

Hoje empresário e palestrante, ele lembra que, à época, os pais estavam de férias na Itália e ele passaria a semana sozinho em casa. Por coincidência, era aniversário do irmão, que morava no Chile e resolveu aparecer de surpresa, acompanhado da noiva.

 Vanessa Centamori Pedro Pimenta durante evento da farmacêutica GSK em São Paulo — Foto: Vanessa Centamori

Os primeiros sintomas começaram no início da tarde, durante um almoço com colegas do curso pré-vestibular: dor de cabeça intensa, vômitos em jato, febre e taquicardia. Pedro achou que fosse uma gripe forte ou até mesmo dengue.

No mesmo ano, já havia tratado duas amidalites e uma mononucleose, o que reforçou a impressão de que se tratava apenas de mais uma infecção passageira. O rapaz, então, tomou um analgésico e foi dormir, acreditando que acordaria melhor no dia seguinte. De madrugada, Pedro acordou vomitando e em confusão mental. Tentou acordar o irmão ligando para o número dele, mas não obteve resposta. Por sorte, conseguiu acionar o celular da noiva do irmão, médica. Quando ela percebeu que havia manchas roxas surgindo nos braços do jovem, entrou em pânico: a situação era gravíssima.

A meningococcemia pode levar à morte em apenas 24 horas. Como toda doença meningocócica invasiva (DMI), a síndrome é de difícil diagnóstico, já que os primeiros sintomas são bastante inconclusivos: perda de apetite, mal-estar, febre e náusea.

Os sinais mais clássicos só surgem após 8 a 15 horas, e incluem lesões arroxeadas ou vermelhas na pele, além de uma rigidez de nuca e fotofobia. Depois desse intervalo, a situação piora, ocorrendo confusão, delírio e crises convulsivas.

"Muitas vezes a gente olha com mais preocupação para uma pessoa que tem uma condição de saúde mais vulnerável, um sistema imune mais debilitado. Mas, na verdade, mais de 90% dos casos [de DMI] acontecem em indivíduos previamente saudáveis", observa Ana Medina, farmacêutica, imunologista e gerente médica de vacinas da GSK. "É aquela doença com imprevisibilidade, início súbito e evolução rápida".

Segundo Marcos Gonçalves, Presidente da Sociedade Alagoana de Pediatria, a DMI pode se manifestar como sepse ou meningite (inflamação das meninges), ou ambas. Ele afirma que os pacientes mais graves são aqueles que contraem a sepse de forma isolada (o caso de Pedro).

"O que é sepse ou choque séptico? Nada mais é do que a insuficiência de você bombear o sangue para os tecidos", explica Gonçalves. "Quando vai chegando mais nas nossas extremidades, os vasos vão ficando mais finos. E aí, recebe pouco sangue a extremidade, isto é, as pontas dos dedos, pontas da mão e do pé. Conforme o paciente vai tendo choque, vai tendo maior dificuldade de o sangue chegar nessa periferia".

Nesse tipo de emergência, para salvar a vida do paciente, os médicos precisam aplicar doses altas de drogas vasoativas, como adrenalina e noradrenalina, piorando ainda mais a chegada de sangue nas extremidades do corpo. Como resultado, elas podem necrosar, exigindo amputações desde nas pontas dos dedos até nas mãos, braços e pernas inteiros.

Depois que acordou de um coma induzido de seis dias, Pedro levou um susto: "Meus braços e pernas estavam gangrenados ao ponto que eu via até tendão e buracos", lembra. "Minha última memória foi na ambulância, mas disseram para os meus irmãos e família que eu tinha menos de 1% de chance de sobreviver", recorda o paciente. "Uma formalidade médica, porque eu já cheguei lá [no hospital] quase morto".

O rapaz ainda enfrentou uma infecção hospitalar, que o obrigou a passar por uma cirurgia de alto risco. "Eu meio que suspeitava e quase que queria amputar logo, porque eu sabia que meu 'ticket' para sair do hospital era a amputação", diz.

Depois de um segundo coma, que durou 13 dias, ele acordou notando o corpo diferente sob o lençol. Nas semanas seguintes, enfrentou dores “fantasmas” e superou uma depressão, encontrando algum alívio em jogos de tabuleiro levados por amigos durante a internação.

Em um primeiro momento, sua reabilitação foi considerada "impossível" pelos médicos: era esperado que ele jamais voltaria a se locomover sozinho. Sem obter resultados positivos no Brasil, o jovem foi aos Estados Unidos buscar tratamento.

Hoje, Pedro vive com total autonomia. Desde 2010, não usa cadeira de rodas e se locomove com próteses robóticas. Fundou, em São Paulo e Belo Horizonte, a Da Vinci Clinic, clínica especializada em reabilitação de amputados. Também é pai de Bernardo, nascido por fertilização in vitro — a meningococcemia o deixou estéril.

O causador da DMI, a bactéria meningococo, possui ao menos 13 sorogrupos identificados, dos quais seis são os mais frequentes: A, B, C, W, X e Y. Esses causam a meningite meningocócica A, B, C, e assim por diante.

No Brasil, a taxa de mortes por meningite meningocócica é de cerca de 22% — mais que o dobro da média global, estimada em 10%. Os casos vêm crescendo: 728 registros e 159 mortes em 2023; 824 casos e 174 óbitos em 2024; e 833 casos e 165 mortes até outubro de 2025.

A doença afeta principalmente crianças menores de 5 anos, mas pode ocorrer em qualquer idade. Até 23% de adolescentes e adultos jovens podem carregar a bactéria sem sintomas, funcionando como principais transmissores. A infecção ocorre por gotículas e secreções — tosse, espirro, beijo ou compartilhamento de objetos.

A vacinação é a melhor prevenção. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece gratuitamente a vacina meningocócica C para bebês e a ACWY para adolescentes. Na rede privada, especialistas recomendam ampliar a proteção com as vacinas B e ACWY na infância e reforços ao longo da adolescência. Também ajudam a prevenir a doença evitar aglomerações, manter boa ventilação e não compartilhar objetos pessoais.

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