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O Papa Leão XIV publicou uma nota doutrinal no Vaticano reconhecendo a “finalidade unitiva” do sexo. O documento aborda a visão da Igreja sobre sexualidade e matrimônio, situando a discussão no contexto atual da doutrina católica.
No fim de novembro, o Papa Leão XIV surpreendeu ao reconhecer uma nova “finalidade” para o sexo no casamento. Em uma nota doutrinal assinada pelo pontífice e divulgada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé (antigo Tribunal do Santo Ofício), a Igreja Católica aponta a existência de uma “finalidade unitiva da sexualidade”.
O texto, que reforça a defesa católica da união monogâmica entre homem e mulher, destaca que o coito possui objetivos que vão além da procriação. [Os atos sexuais] não se limitam a assegurar a procriação, mas contribuem para enriquecer e fortalecer a união única e exclusiva e o sentimento de pertencimento mútuo”, diz a publicação.
Aprovada pelo papa e divulgada apenas em italiano, a nota reafirma a doutrina tradicional em relação ao sexo, mas reconhece mudanças provocadas pelas transformações sociais das últimas décadas, que alteraram o “contexto do individualismo consumista pós-moderno”. Segundo o documento, muitos problemas derivam da “busca excessiva e descontrolada pelo sexo ou da simples negação da finalidade procriativa da sexualidade”.
Papa Leão XIV foi eleito pelo conclave no dia 8 de maio. (Foto: Getty)Ainda assim, a Igreja admite que houve uma “negação explícita da finalidade unitiva da sexualidade e do próprio matrimônio”. Por isso, o Dicastério para a Doutrina da Fé incentiva os casais a buscar “o desejo de troca emocional, pelas próprias relações sexuais, mas também pelo diálogo e pela cooperação”.
O argumento reforça que é necessário considerar a visão integral da caridade conjugal, entendida como aquela que “não nega a sua fecundidade”. O documento afirma ainda que a união sexual “deva naturalmente permanecer aberta à comunicação da vida”, mas que isso não significa que cada ato sexual precise ter “o objetivo explícito” de gerar filhos.
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Nesse sentido, o texto apresenta três situações em que o sexo é considerado “legítimo” pela Igreja, mesmo sem a intenção imediata de procriação:
– A vida sexual de casais que não podem ter filhos;
– Quando “um casal não procura conscientemente um determinado ato sexual como meio de procriação”;
– O uso dos “períodos naturais de infertilidade”, que podem ser aproveitados “como manifestação de afeto e para salvaguardar a fidelidade mútua”.
Sobre o terceiro item, o documento ressalta que esses períodos “podem servir não só para regular as taxas de natalidade, mas também para escolher os momentos mais adequados para acolher uma nova vida”. Ao agir assim, afirma o texto, os casais “demonstram um amor verdadeiro e completamente honesto”.
O texto, que reforça a defesa católica da união monogâmica entre homem e mulher, reconhece que o objetivo do sexo, em certos casos, vai além da procriação. (Foto: Unsplash)Apesar da repercussão da nota, essa postura não é inédita no catolicismo. Para o teólogo Raylson Araujo, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ela representa uma continuidade na renovação da doutrina. “Embora não seja uma novidade, há uma evolução no pensamento da Igreja enquanto instituição em relação ao sexo, para além da dimensão reprodutiva”, disse ele à BBC News Brasil.
Araujo lembra que, em manuais antigos que orientavam padres nos séculos 16 e 17, eram comuns recomendações de abstinência sexual mesmo dentro do matrimônio. No passado, predominava a visão do sexo como algo “pecaminoso, sujo”, e era frequente que sacerdotes instruíssem casais a não manter relações durante períodos considerados “santos”, como a Quaresma ou até aos domingos.
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O Catecismo da Igreja Católica de 1992, por exemplo, já menciona o chamado “caráter unitivo” das relações sexuais no matrimônio. “A função unitiva do sexo, além da procriativa, é tradicional no magistério da Igreja”, destaca Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo da religião e ex-coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.
Ele lembra que, no magistério de João Paulo II, essa abordagem era recorrente. “[Ele] insistiu na necessidade de que os casais cristãos reconhecessem esse aspecto da sexualidade. O que houve foi uma redução moralizante da mensagem cristã, que inclusive vai contra uma concepção integral da moral cristã. O documento atual apenas recorda algo que deveria ser sabido e reconhecido por todos que se interessam pela doutrina católica”, conclui.
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