Homem é curado do HIV de forma inesperada após passar por terapia com células-tronco

há 1 mês 30
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Pela sétima vez na história, um paciente vivendo com HIV e diagnosticado com câncer teve o vírus eliminado do organismo após um transplante de células-tronco.

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Publicado na Nature nesta segunda-feira (2), no Dia Mundial de Combate à AIDs, um estudo que descreve o resultado do tratamento representa mais um marco em uma trajetória científica ainda incerta, mas cada vez mais promissora. A peculiaridade do novo caso – batizado de “B2” pelos pesquisadores – é que a cura ocorreu mesmo com um doador considerado, inicialmente, menos favorável do que em situações anteriores, o que amplia a esperança de que a abordagem possa ser reproduzida com maior frequência no futuro.

O estudo revela que a cura surgiu como consequência indireta da terapia destinada a tratar a leucemia mieloide aguda (LMA), e não como uma intervenção específica para eliminar o HIV. A transferência de células-tronco repetiu um padrão observado nos seis casos anteriores: o vírus desaparece como efeito colateral de um tratamento oncológico agressivo.

Até agora, as curas documentadas envolviam doadores portadores de uma rara mutação genética – chamada CCR5 Δ32 – em ambas as cópias do gene que codifica o receptor CCR5, porta de entrada usada pelo HIV para infectar células. Pessoas com duas cópias da mutação produzem receptores reduzidos ou disfuncionais, tornando o vírus incapaz de as invadir.

Ao contrário do esperado, o doador do caso B2 tinha apenas uma cópia da variante e outra cópia normal. A mutação é considerada recessiva, o que sugeriria que um único alelo modificado não seria suficiente para impedir o uso do receptor pelo HIV. Apesar disso, seis anos após interromper seu tratamento antirretroviral, nenhuma partícula viral foi detectada no organismo do paciente, resultado que surpreendeu os autores do estudo.

O voluntário analisado pelo estudo, hoje com 60 anos e residente em Berlim (Alemanha), foi diagnosticado com HIV em 2009. Em 2015, iniciou o tratamento contra a LMA e recebeu o transplante de células-tronco do doador com composição genética incomum. Curiosamente, o próprio B2 também possui um gene CCR5 Δ32 e outro gene CCR5 comum, combinação genética que não o protegeu contra a infecção inicial — outro elemento que adiciona complexidade à interpretação dos resultados.

De sentença de morte a condição tratável

Desde a disseminação dos antirretrovirais, a infecção pelo HIV deixou de ser considerada fatal. Em países com melhores sistemas de saúde – ou nos que os cidadãos têm condições financeiras para arcarem com a medicação –, a expectativa de vida é comparável à da população geral, com poucos ou nenhum sintoma.

O curioso é que tem surgido um pequeno, mas crescente, grupo de indivíduos para os quais o HIV é parte do passado: casos de cura – funcional ou completa – têm sido registrados, quase sempre envolvendo um tratamento simultâneo ao de algum câncer hematológico.

Esse fenômeno teve início em 2008, com Timothy Ray Brown, o primeiro paciente no mundo a ser declarado curado do HIV após dois transplantes de células-tronco para tratar LMA. Brown recebeu material de um doador que possuía a mutação CCR5 Δ32 em ambas as cópias do gene. Desde então, variantes desse protocolo experimental levaram à cura de outros cinco pacientes.

Transplantes de células-tronco são procedimentos de alto risco, associados a efeitos colaterais severos, elevada mortalidade e custos elevados. Além disso, encontrar doadores compatíveis exige registros volumosos e internacionalmente integrados. Por essa razão, os antirretrovirais permanecem como a melhor opção para o tratamento do HIV.

Apesar das incertezas, o sétimo caso de cura reforça a noção de que o HIV pode ser eliminado do organismo em circunstâncias específicas. Para os cientistas, cada novo caso é mais uma peça que se encaixa para decifrar a doença.

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