Gatos foram domesticados no norte da África – e há menos tempo do que se pensava

há 1 mês 25
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A história de como os gatos passaram a viver ao lado dos humanos pode ser menos antiga do que se imaginava. Um amplo estudo genético publicado nessa quinta-feira (27) na revista Science indica que a domesticação dos gatos modernos (Felis catus) provavelmente começou no norte da África, e não no Oriente Médio ou no Mediterrâneo oriental, como sustentavam hipóteses anteriores. Essa análise também aponta que os felinos domesticados só se tornaram comuns na Europa há cerca de 2.000 anos, durante a era romana.

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Sob a liderança do paleogeneticista Claudio Ottoni, da Universidade de Roma Tor Vergata, na Itália, os pesquisadores analisaram 70 genomas de gatos antigos, datados de um período entre 11 mil anos atrás e o século 19, além de 17 genomas de gatos-selvagens modernos, provenientes de museus e de populações atuais no norte da África, na Itália, em Israel e na Bulgária. Também foram coletados dados de 225 exemplares arqueológicos e contemporâneos, combinando as sequências genômicas com datação por radiocarbono.

Como destaca o jornal Folha de S. Paulo, os resultados mostraram que, ao contrário do que indicavam pesquisas apoiadas exclusivamente em DNA mitocondrial (mtDNA), os gatos encontrados na Europa antes de 200 a.C. não eram ancestrais dos gatos domésticos modernos. Na verdade, eles estavam relacionados aos gatos-selvagens-europeus (Felis silvestris).

Ainda que alguns apresentassem mtDNA associado ao Felis lybica lybica, uma espécie selvagem africana considerada ancestral dos gatos domésticos, a análise do genoma completo evidenciou que esses casos se deviam a episódios naturais de hibridização entre populações selvagens. Ou seja, não se tratava de um caso de presença precoce de gatos domesticados na região.

Migração ao longo dos séculos

A análise genética mostrou que todos os gatos domésticos modernos derivam de um único agrupamento populacional. Esses exemplares são mais próximo dos gatos-selvagens africanos do norte da África, especialmente os oriundos da Tunísia, do que de qualquer outra população selvagem já documentada.

Dessa maneira, a descoberta desloca o foco das hipóteses anteriores. Até então, entendia-se que a domesticação tinha sido iniciada no Crescente Fértil, onde as populações de agricultores neolíticos teriam, teoricamente, acolhido felinos atraídos por roedores que infestavam depósitos de grãos.

Os dados agora sugerem que, mesmo existindo populações de Felis lybica lybica no Oriente Médio e no norte da África, foram as populações africanas, não as asiáticas, que originaram os gatos domesticados modernos. Ainda assim, um elemento crucial permanece ausente: a análise genética de gatos antigos e modernos do Egito, cujos materiais genéticos não foram bem conservados pela mumificação.

Um outro ponto fundamental do estudo é a revelação de que os gatos domesticados chegaram à Europa apenas por volta do século 1 d.C., durante a formação e expansão do Império Romano. A presença de gatos domesticados em sítios europeus só se torna consistente a partir desse período, e análises de DNA antigo confirmam que os felinos encontrados na Áustria, Sérvia, Bélgica e Grã-Bretanha compartilham parentesco com os gatos modernos e, mais distantemente, com gatos selvagens africanos.

Os pesquisadores também sugerem que culturas marítimas do Mediterrâneo ocidental, como fenícios e os povos púnicos, podem ter exercido papel importante na difusão inicial dos gatos domesticados. Esses navegadores mantinham rotas e colônias entre o norte da África, a Sardenha e o sul da Península Ibérica, o que pode explicar a afinidade genética entre gatos africanos e populações felinas enigmáticas encontradas hoje na Sardenha.

No entanto, foi a infraestrutura urbana romana — com armazéns repletos de grãos e populações densas de roedores — que parece ter proporcionado o ambiente ideal para que os gatos se adaptassem e se espalhassem rapidamente. Em entrevista à National Geographic, Ottoni observa que as cidades romanas constituíam “cenários ideais” para que os gatos explorassem o nicho humano.

Investigação em andamento

Durante décadas, a hipótese dominante situava a domesticação dos gatos há cerca de 10 mil anos no Oriente Médio, apoiando-se sobretudo na descoberta, em 2004, de um sepultamento neolítico no Chipre onde um gato foi enterrado junto a um ser humano — uma evidência datada de cerca de 7500 a.C. Estudos genéticos anteriores também sugeriam que gatos teriam acompanhado a expansão agrícola neolítica rumo à Europa, carregados por comunidades humanas que se beneficiavam de sua habilidade para controlar roedores.

Entretanto, o novo mapeamento genômico invalida essa narrativa. Os gatos encontrados no Mediterrâneo oriental antes de 200 a.C. eram geneticamente semelhantes a gatos-selvagens-europeus, indicando que, embora pudessem viver próximos a comunidades humanas ou até ser caçados por elas, não eram ancestrais dos gatos domésticos atuais.

Apesar do avanço representado pelo estudo, a história evolutiva dos gatos permanece incompleta. A dificuldade de extrair DNA preservado de múmias egípcias, muitas delas da Época Baixa, entre 664 e 332 a.C., impede que se determine com precisão o papel do Egito na domesticação, mesmo sendo a primeira cultura a retratar gatos em ambientes domésticos e como seres divinizados

Os pesquisadores acreditam que recuperar esse DNA pode fornecer peças fundamentais para compreender como e quando populações africanas de Felis lybica lybica passaram a conviver de forma estável com humanos. Daí a importância da continuação dos estudos no tema.

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