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Um novo estudo feito por pesquisadores dos EUA e Canadá lança luz sobre um aspecto pouco conhecido — e vital — da ecologia ártica: o papel dos ursos polares como grandes fornecedores de alimento para outras espécies. O levantamento calcula que os predadores deixam para trás cerca de 7,6 milhões de kg de restos todos os anos.
A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Universidade de Manitoba, da San Diego Zoo Wildlife Alliance, do organização Environment and Climate Change Canada e da Universidade de Alberta, e publicada na revista Oikos em outubro.
A descoberta reforça a posição do urso polar como um elo estratégico entre o oceano e a superfície congelada. Ao caçar focas no gelo marinho e abandonar parte das suas carcaças em terra, o animal transfere energia do ambiente marinho para o terrestre — energia da qual dependem muitos animais necrófagos. O estudo lista pelo menos 11 espécies de vertebrados que se alimentam desses restos, entre as quais estão as raposas-do-ártico e os corvos.
“Nossas descobertas quantificam, pela primeira vez, a enorme escala do papel dos ursos polares como fonte de alimento para outras espécies e a interconexão de seu ecossistema”, afirma a bióloga Holly Gamblin, autora do estudo, em comunicado à imprensa. “Não existe outra espécie que substitua adequadamente a forma como o urso polar caça, arrastando suas presas da água para o gelo marinho e deixando restos substanciais para que outras espécies possam acessá-los.”
O projeto detalha que cada urso polar mata anualmente o equivalente a cerca de 1001 kg de biomassa de mamíferos marinhos — principalmente focas-anelares. Desse total, aproximadamente metade permanece disponível como carniça para outros animais após os ursos consumirem a parte que mais lhes interessa: o "blubber" (o tecido de gordura mais energético das presas). Essa estratégia permite maximizar a ingestão calórica e reduzir a necessidade de metabolizar grandes quantidades de proteína em um ambiente onde a água líquida é escassa.
Urso polar com uma cria de foca-barbuda recentemente abatida. Os ursos polares alimentam-se principalmente da gordura rica em energia das suas presas para acumular reservas de gordura e frequentemente abandonam grandes quantidades de carcaças — Foto: Holly EL Gamblin et al. Até agora, a maior parte das pesquisas sobre o impacto das mudanças climáticas nos ursos polares se concentrou na própria sobrevivência da espécie, ameaçada pela rápida perda de gelo marinho. O novo estudo amplia esse horizonte, demonstrando que o declínio das populações desses animais pode desencadear um efeito cascata em todo o ecossistema.
Nicholas Pilfold, da San Diego Zoo Wildlife Alliance, reforça esse alerta: “O gelo marinho serve como plataforma para que muitas espécies acessem os recursos alimentares fornecidos pelos ursos polares e, em última análise, o declínio do gelo marinho reduzirá o acesso a essa fonte de energia”. Ele explica que duas subpopulações já registram perdas significativas.
As mudanças climáticas ameaçam não apenas os ursos polares, mas toda a cadeia que eles ajudam a manter — Foto: San Diego Zoo Wildlife Alliance Os resultados do estudo indicam que o declínio documentado na abundância de ursos polares em duas subpopulações já resultou na perda de mais de 300 toneladas de recursos alimentares para necrófagos anualmente. Dessa maneira, percebe-se uma fragilidade do equilíbrio ecológico no Ártico.
Esses esforços revelam que o impacto pode ser ainda maior. Subpopulações como Western Hudson Bay e Southern Beaufort Sea já perderam juntas mais de 320 toneladas anuais de carcaça potencial, reduzindo a densidade de pontos de alimentação e forçando necrófagos, especialmente as raposas-do-ártico, a percorrer distâncias maiores para localizar alimento
Um ecossistema interligado e vulnerável
Conforme o gelo derrete e o número de ursos diminui, a base alimentar de diversas espécies se contrai. Isso significa que a preservação dos ursos polares extrapola a proteção de uma única espécie: é essencial para manter o funcionamento de todo um sistema ecológico complexo.
O estudo descreve ainda como o próprio gelo funciona como um “refrigerador natural”, capaz de conservar uma carcaça por semanas ou meses. Esse congelamento prolongado retarda a decomposição e amplia a janela de acesso para aves e mamíferos. Quando o gelo derrete, as carcaças afundam e passam a alimentar uma nova comunidade de organismos no ambiente marinho, conectando camadas inteiras do ecossistema, da superfície ao fundo do oceano.
Diagrama ilustrando um subconjunto de membros conhecidos e potenciais do grupo de necrófagos do gelo marinho associados a carcaças de presas do urso polar — Foto: Holly EL Gamblin et al. A equipe também chama atenção para certas lacunas. Pouco se sabe, por exemplo, sobre a frequência com que muitas espécies usam essas carcaças, quais são as hierarquias de competição ao redor delas, ou como doenças e poluentes podem ser transmitidos através da carniça. A pesquisa defende a necessidade urgente de estudos sistemáticos sobre o assunto.
Para os autores, a mensagem é clara: conservar os ursos polares é proteger também raposas, aves e outros animais que dependem de seu papel involuntário como fornecedores de alimento. Em um cenário de rápidas transformações climáticas, entender essas conexões — e agir sobre elas — torna-se fundamental para garantir a resiliência da vida selvagem ártica.

há 1 mês
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