Como as sobras deixadas por ursos polares sustentam a vida no Ártico

há 1 mês 31
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Um novo estudo feito por pesquisadores dos EUA e Canadá lança luz sobre um aspecto pouco conhecido — e vital — da ecologia ártica: o papel dos ursos polares como grandes fornecedores de alimento para outras espécies. O levantamento calcula que os predadores deixam para trás cerca de 7,6 milhões de kg de restos todos os anos.

A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Universidade de Manitoba, da San Diego Zoo Wildlife Alliance, do organização Environment and Climate Change Canada e da Universidade de Alberta, e publicada na revista Oikos em outubro.

A descoberta reforça a posição do urso polar como um elo estratégico entre o oceano e a superfície congelada. Ao caçar focas no gelo marinho e abandonar parte das suas carcaças em terra, o animal transfere energia do ambiente marinho para o terrestre — energia da qual dependem muitos animais necrófagos. O estudo lista pelo menos 11 espécies de vertebrados que se alimentam desses restos, entre as quais estão as raposas-do-ártico e os corvos.

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“Nossas descobertas quantificam, pela primeira vez, a enorme escala do papel dos ursos polares como fonte de alimento para outras espécies e a interconexão de seu ecossistema”, afirma a bióloga Holly Gamblin, autora do estudo, em comunicado à imprensa. “Não existe outra espécie que substitua adequadamente a forma como o urso polar caça, arrastando suas presas da água para o gelo marinho e deixando restos substanciais para que outras espécies possam acessá-los.”

O projeto detalha que cada urso polar mata anualmente o equivalente a cerca de 1001 kg de biomassa de mamíferos marinhos — principalmente focas-anelares. Desse total, aproximadamente metade permanece disponível como carniça para outros animais após os ursos consumirem a parte que mais lhes interessa: o "blubber" (o tecido de gordura mais energético das presas). Essa estratégia permite maximizar a ingestão calórica e reduzir a necessidade de metabolizar grandes quantidades de proteína em um ambiente onde a água líquida é escassa.

 Holly EL Gamblin et al. Urso polar com uma cria de foca-barbuda recentemente abatida. Os ursos polares alimentam-se principalmente da gordura rica em energia das suas presas para acumular reservas de gordura e frequentemente abandonam grandes quantidades de carcaças — Foto: Holly EL Gamblin et al.

Até agora, a maior parte das pesquisas sobre o impacto das mudanças climáticas nos ursos polares se concentrou na própria sobrevivência da espécie, ameaçada pela rápida perda de gelo marinho. O novo estudo amplia esse horizonte, demonstrando que o declínio das populações desses animais pode desencadear um efeito cascata em todo o ecossistema.

Nicholas Pilfold, da San Diego Zoo Wildlife Alliance, reforça esse alerta: “O gelo marinho serve como plataforma para que muitas espécies acessem os recursos alimentares fornecidos pelos ursos polares e, em última análise, o declínio do gelo marinho reduzirá o acesso a essa fonte de energia”. Ele explica que duas subpopulações já registram perdas significativas.

 San Diego Zoo Wildlife Alliance As mudanças climáticas ameaçam não apenas os ursos polares, mas toda a cadeia que eles ajudam a manter — Foto: San Diego Zoo Wildlife Alliance

Os resultados do estudo indicam que o declínio documentado na abundância de ursos polares em duas subpopulações já resultou na perda de mais de 300 toneladas de recursos alimentares para necrófagos anualmente. Dessa maneira, percebe-se uma fragilidade do equilíbrio ecológico no Ártico.

Esses esforços revelam que o impacto pode ser ainda maior. Subpopulações como Western Hudson Bay e Southern Beaufort Sea já perderam juntas mais de 320 toneladas anuais de carcaça potencial, reduzindo a densidade de pontos de alimentação e forçando necrófagos, especialmente as raposas-do-ártico, a percorrer distâncias maiores para localizar alimento

Um ecossistema interligado e vulnerável

Conforme o gelo derrete e o número de ursos diminui, a base alimentar de diversas espécies se contrai. Isso significa que a preservação dos ursos polares extrapola a proteção de uma única espécie: é essencial para manter o funcionamento de todo um sistema ecológico complexo.

O estudo descreve ainda como o próprio gelo funciona como um “refrigerador natural”, capaz de conservar uma carcaça por semanas ou meses. Esse congelamento prolongado retarda a decomposição e amplia a janela de acesso para aves e mamíferos. Quando o gelo derrete, as carcaças afundam e passam a alimentar uma nova comunidade de organismos no ambiente marinho, conectando camadas inteiras do ecossistema, da superfície ao fundo do oceano.

 Holly EL Gamblin et al. Diagrama ilustrando um subconjunto de membros conhecidos e potenciais do grupo de necrófagos do gelo marinho associados a carcaças de presas do urso polar — Foto: Holly EL Gamblin et al.

A equipe também chama atenção para certas lacunas. Pouco se sabe, por exemplo, sobre a frequência com que muitas espécies usam essas carcaças, quais são as hierarquias de competição ao redor delas, ou como doenças e poluentes podem ser transmitidos através da carniça. A pesquisa defende a necessidade urgente de estudos sistemáticos sobre o assunto.

Para os autores, a mensagem é clara: conservar os ursos polares é proteger também raposas, aves e outros animais que dependem de seu papel involuntário como fornecedores de alimento. Em um cenário de rápidas transformações climáticas, entender essas conexões — e agir sobre elas — torna-se fundamental para garantir a resiliência da vida selvagem ártica.

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