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"Senciência" é a capacidade de experimentar emoções básicas, como dor, medo e desconforto, além de perceber e diferenciar estados internos como bons ou ruins. Durante muito tempo, acreditou-se que certas espécies de animais, como os crustáceos (camarões e lagostas, por exemplo), não teriam um sistema nervoso complexo o suficiente para experimentar sensações do tipo. Essa falta de consenso fez com que o hábito de cozinhar esses frutos do mar ainda vivos fosse praticado em diferentes países. Afinal, manter o bicho vivo até o momento final seria a forma de garantir um ingrediente mais fresco possível.
Só que com novos estudos sobre bem-estar animal, hoje já existem argumentos suficientes para defender a ideia exatamente oposta, desencorajando métodos cruéis de preparo de frutos do mar. Um documento lançado nesta segunda-feira (1) pela ONG sem fins lucrativos de proteção animal Alianima, por exemplo, defende que os crustáceos são sencientes, isto é, eles têm a habilidade de sofrer e sentir.
A chamada “Declaração de Senciência em Crustáceos” foi assinada por 35 especialistas de diversos países — entre eles cientistas, biólogos, médicos e veterinários — e se apoia em evidências neuroanatômicas, comportamentais e farmacológicas. O documento dá continuidade ao trabalho iniciado entre 2021 e 2023, quando a ONG publicou a “Declaração de Senciência em Peixes”.
O texto indica que a capacidade de sentir emoções não é exclusiva dos vertebrados. "Embora ainda existam lacunas científicas, evidências neuroanatômicas, farmacológicas e comportamentais desses animais são consistentes com a sua resposta à dor", escrevem os autores.
Segundo o documento, os crustáceos possuem um sistema nervoso capaz de detectar e responder a estímulos potencialmente prejudiciais, como calor excessivo ou choques elétricos. Além disso, eles apresentam receptores específicos para dor e respostas comportamentais complexas diante de estímulos nocivos — entre elas, comportamentos de autocuidado, como "esfregar" a área afetada.
O texto também menciona experimentos nos quais crustáceos anestesiados mostraram redução de comportamentos alterados na presença de estímulos dolorosos, reforçando a interpretação de que essas reações não são meros reflexos, mas parte de um processamento mais elaborado.
Por fim, a declaração destaca pesquisas recentes que apontam que eles conseguem distinguir cores e objetos, produzir e perceber sons, reconhecer outros indivíduos e realizar diferentes formas de aprendizado. Os crustáceos também demonstram memória, orientação espacial, tomada de decisão, cuidado com os filhotes e até indícios de comportamentos que sugerem personalidades distintas.
Atualmente, porém, esses seres ainda recebem pouca atenção em políticas públicas e práticas de bem-estar. Cerca de 440 bilhões de camarões são produzidos todos os anos em fazendas ao redor do mundo, o que representa mais que o quíntuplo da produção total de animais terrestres. Ao incluir também a pesca, estima-se que até 76 trilhões de camarões sejam abatidos por ano.
O que diz a ciência sobre a senciência em crustáceos?
Em 2021, um relatório que analisou mais de 300 estudos científicos levou o governo do Reino Unido a reconhecer legalmente os moluscos cefalópodes (polvos, chocos e lulas) e os crustáceos decápodes (lagostas, caranguejos e camarões) como seres sencientes.
Para a investigação, os autores usaram oito critérios científicos, sendo metade deles a respeito do sistema nervoso dos animais e a outra metade focada no comportamento deles. "Individualmente, nenhum dos nossos critérios prova que uma criatura é senciente. Mas quanto mais critérios ela atender, maior a probabilidade de ser senciente", afirmam os cientistas em artigo publicado no site The Conversation sobre a pesquisa.
No ano passado, outro estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, deu novos argumentos nessa linha. Os cientistas analisaram com eletroencefalografia (EEG) caranguejos-verdes (Carcinus maenas), que foram submetidos a uma substância química potencialmente dolorosa. Como resultado, os autores notaram um aumento da atividade cerebral, indicando que esses animais apresentam algum tipo de receptor de dor em seus tecidos moles.
Já em uma revisão de estudos mais recente, publicada em fevereiro, o especialista em comportamento animal Robert William Elwood, professor emérito da Queen's University of Belfast, na Irlanda do Norte, defende que os crustáceos não respondem a todos os estímulos nocivos que afetam os mamíferos, como ao frio ou à capsaicina (composto que causa ardência em pimentas).
Ainda assim, Elwood reconhece experimentos que demonstraram semelhanças com as respostas dos mamíferos em termos de comportamento e fisiologia. "Não podemos saber se os crustáceos sentem dor, mas estudos experimentais recentes sugerem que isso é uma possibilidade", concluiu.
Por enquanto, a Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA) ainda não tem recomendações específicas para o bem-estar de crustáceos, embora seu Código Sanitário para Animais Aquáticos já traga diretrizes de saúde e manejo responsável. O tema também vem sendo discutido por instituições internacionais como a RSPCA, a British Veterinary Association e a Universities Federation for Animal Welfare (UFAW), que têm avançado em orientações para invertebrados aquáticos.
“Mesmo com lacunas científicas ainda existentes, há um volume crescente de evidências sólidas mostrando que crustáceos reagem a estímulos nocivos de forma consistente com a experiência da dor", destaca Caroline Maia, bióloga com pós-doutorado em aquicultura e especialista em peixes na Alianima. "Eles aprendem a evitar situações prejudiciais e dolorosas, ajustam seu comportamento e podem sofrer estresse prolongado. Não podemos ignorar isso”.

há 1 mês
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