A inteligência coletiva das comunidades na proteção das águas amazônicas

há 1 mês 29
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A Amazônia é um território de águas abundantes, rios que conectam vidas e sustentam a maior biodiversidade do planeta. Mas também é um território de desafios: a ausência ou limitação de mecanismos financeiros de valorização de práticas sustentáveis, a pressão sobre os recursos naturais, a pesca predatória e as mudanças climáticas colocam em risco os ecossistemas aquáticos e as comunidades que deles dependem. Nesse contexto, o estudo “Pesca na Amazônia: Mapeamento de Iniciativas de Manejo e Monitoramento”, desenvolvido pela The Nature Conservancy (TNC) e parceiros, traz uma contribuição inédita e essencial para a compreensão da governança pesqueira na região.

O levantamento identificou 155 iniciativas de manejo pesqueiro em quatro países amazônicos, cobrindo quase 13 milhões de hectares, área um pouco menor do que o estado do Amapá. Só no Brasil, concentram-se 75% dessas experiências, com destaque para o estado do Amazonas, que abriga 98 delas. O Peru responde por 22%, seguido por Bolívia e Colômbia. Essas iniciativas não são apenas números em um mapa: representam comunidades que decidiram gerir seus recursos de forma sustentável, garantindo alimento, renda e a continuidade dos ecossistemas aquáticos.

Os resultados mostram que 34% das áreas de manejo estão dentro de unidades de conservação e 26% em territórios indígenas, destacando mais uma vez a relação direta entre conservação ambiental e os modos de vida tradicionais. Mais do que proteger a biodiversidade, o manejo comunitário da pesca contribui para fortalecer a governança local e assegurar o uso sustentável dos recursos.

Mais de 1.200 comunidades e 21.600 pescadores participam dessas iniciativas, que refletem a potência da ação coletiva em escala continental. Entre elas, pelo menos 59 focam na gestão do pirarucu, espécie símbolo da Amazônia e exemplo de sucesso da conservação baseada na ciência e no protagonismo das populações locais. Isto porque das 60 iniciativas de monitoramento da pesca mapeadas, distribuídas em cinco países, 86% envolvem ciência cidadã. São pescadores e comunidades que registram informações sobre as espécies, o volume de captura, o local da pesca e até aspectos socioeconômicos. Esse protagonismo é um dos achados mais relevantes do levantamento, pois mostra que o conhecimento local é uma ferramenta poderosa para gerar dados de qualidade e orientar políticas públicas. A ciência cidadã se consolida, assim, como um elo entre a pesquisa acadêmica e a gestão prática dos recursos naturais.

Outro dado expressivo é a longevidade das ações: 43% das iniciativas de monitoramento existem há mais de cinco anos, o que demonstra consistência e comprometimento das comunidades envolvidas. No entanto, o levantamento alerta que apenas 20 das 155 iniciativas de manejo possuem monitoramento sistemático, e que há lacunas na documentação das práticas informais, aquelas que, apesar de não terem reconhecimento legal, desempenham papel vital na sustentabilidade da pesca e na proteção das águas amazônicas. Ampliar o reconhecimento e o apoio a essas iniciativas é um passo urgente para garantir a integridade dos ecossistemas e o bem-estar das populações ribeirinhas.

Os mapas produzidos pelo estudo representam mais do que um registro técnico: são um retrato vivo da Amazônia que se organiza, aprende e se adapta. Eles revelam um mosaico de governanças locais que, embora dispersas, apontam para uma mesma direção: a da sustentabilidade e do respeito à natureza. É um esforço que transcende fronteiras nacionais e exige cooperação entre governos, organizações e comunidades para promover uma gestão integrada da bacia amazônica.

A pesquisa também destaca a importância de reconhecer e fortalecer as florestas públicas não destinadas, que abrigam cerca de 17,5% das iniciativas mapeadas. Essas áreas, por não terem ainda uma designação oficial, estão mais vulneráveis à grilagem e ao desmatamento. Atribuir a elas um status formal de proteção pode ampliar a eficácia das iniciativas comunitárias e consolidar resultados duradouros para a conservação.

O trabalho de campo e a compilação de dados enfrentaram um desafio à altura da Amazônia: a vastidão do território e a escassez de informações oficiais. Muitas áreas foram identificadas a partir de entrevistas, relatórios e conhecimento local. Essa limitação não reduz o valor do estudo; pelo contrário, evidencia a necessidade de criar mecanismos contínuos de validação, atualização e diálogo entre os diversos atores. A Amazônia é dinâmica, e compreender suas transformações exige uma abordagem igualmente viva e colaborativa.

O mapeamento da pesca amazônica é, portanto, um marco na construção de uma governança hídrica e pesqueira baseada em evidências e inclusão social. Ele aponta caminhos para políticas públicas mais efetivas, que considerem as comunidades como parte essencial da solução em que são protagonistas, promovendo o empoderamento destas comunidades na defesa de suas práticas tradicionais. Ao reconhecer que a conservação só é possível com as pessoas, e não apesar delas, o estudo reafirma uma das premissas mais poderosas da sustentabilidade.

Nas margens dos rios nascem as soluções mais duradouras para o futuro da Amazônia. O conhecimento compartilhado entre cientistas, gestores públicos e pescadores não apenas protege os peixes e os ecossistemas, mas também assegura a segurança alimentar e cultural de milhares de famílias.

Em um momento em que o planeta busca modelos de desenvolvimento que conciliem produção e conservação, a Amazônia oferece um exemplo inspirador: comunidades que manejam a pesca com sabedoria, transformando a prática ancestral em ciência aplicada e esperança concreta. O mapa das águas amazônicas é, acima de tudo, um mapa da resistência e da inteligência coletiva, um convite para que todos reconheçam o valor de quem vive, conhece e protege a floresta a partir de dentro. Ele revela os territórios aquáticos manejados e monitorados por comunidades que vivem em íntima relação com os rios, lagos e igarapés da Amazônia. Mais do que um instrumento técnico, é um convite para reconhecer o valor de quem conhece e protege esse universo por dentro — compreendendo que a água não é apenas meio de vida, mas também elo vital que conecta e sustenta a floresta. Na Amazônia, água e floresta são inseparáveis: cuidar das águas é cuidar de tudo que delas depende.

Este artigo foi escrito por Fernanda de Oliveira Silva, Cientista de Pesca na Amazônia e Clicia Barata, analista de Ciências da The Nature Conservancy (TNC) Brasil.

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