Zoghbi e Gallitto: 6 GHz – O Brasil diante da próxima fronteira da tecnologia móvel

há 2 meses 25
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Luiz Felippe Zoghbi e Lucas GallittoLuiz Felippe Zoghbi e Lucas Gallitto comentam a expectativa da indústria celular para os 6 GHz

Por Lucas Gallitto e Luiz Felippe Zoghbi – O Brasil tem se consolidado como uma referência global nas discussões sobre gestão do espectro, liderando iniciativas que moldam o futuro da conectividade móvel. Assim, o país demonstra seu compromisso com a inovação e a inclusão digital e essa postura estratégica o coloca na vanguarda da indústria móvel, alinhando-se às melhores práticas globais e garantindo que suas redes estejam preparadas para os desafios do 5G e do futuro 6G.

O olhar estratégico da Anatel com relação à faixa de 6 GHz, que desponta como o maior bloco remanescente de espectro em faixas médias, permitiu não só o desenvolvimento de duas tecnologias importantes, mas também foi um movimento chave para garantir qualidade, eficiência e sustentabilidade das redes móveis no país.

Adicionalmente, em análise recente publicada pela GSMA, resta evidente que das 11 cidades latino-americanas analisadas, entre elas Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, o percentual de conexões Wi-Fi usando a faixa de 6 GHz é próximo a 0%. Tendo 84% da conectividade indoor e 71% do tráfego urbano em 5G dependendo das faixas médias, a nova decisão da Agência foi equilibrada ao destinar a parte alta da faixa de 6 GHz às redes móveis, enquanto a parte baixa se mantém para a expansão das redes Wi-Fi.

Importante destacar que aproximadamente 80% da população mundial vive em países que já dedicaram parte da faixa de 6 GHz para uso móvel em totalidade, parcialmente ou por nota de rodapé durante a CRM-23. Esse uso balanceado também consiste no cenário mais seguro para possibilitar o desenvolvimento tecnológico, evitar legados prejudiciais como processos complexos de limpeza de faixa e interferências não gerenciáveis.

Os Emirados Árabes e Hong Kong foram os primeiros a avançar com autorizações às operadoras. Austrália, Bangladesh, Camboja, China, Índia, Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, a União Europeia e o Reino Unido também adotaram uma visão estratégica ao não dedicar 100% da faixa para uma única tecnologia e por avançarem com decisões pró-IMT na parte alta sem expectativa de compartilhamento.

A padronização internacional também indicou a parte alta de 6 GHz como faixa licenciada, com a decisão do 3GPP incluir a faixa n104 (6.425–7.125 MHz) no Release 17, preparando o terreno para redes e dispositivos compatíveis.

Ou seja, a faixa de 6 GHz está harmonizada para as necessidades de faixas médias e seu ecossistema está em desenvolvimento. Os países que a apoiam podem construir um roteiro claro para a conectividade futura, priorizando uma banda larga móvel rápida e acessível.

Cada nova geração móvel tem exigido larguras de faixa significativamente maiores para atender à demanda dos usuários. Enquanto as redes 5G atualmente utilizam canais de 100 MHz em faixas médias, as futuras redes 6G exigirão canais de 200 MHz por operadora (e posteriormente de 400 MHz) para começar a cumprir a promessa de latência ultrabaixa, alta capacidade e confiabilidade aprimorada para aplicações avançadas.

A faixa de 6 GHz é, portanto, vista como catalisadora para a expansão do 5G e a preparação para o 6G. Embora o ecossistema de equipamentos para a faixa de 6 GHz ainda esteja em fase de amadurecimento, os principais fornecedores de infraestrutura já demonstram capacidade técnica e compromisso para atender à demanda à medida que ela se consolida. Isso reforça a viabilidade da faixa como parte estratégica do planejamento de longo prazo.

O Brasil tem se destacado na implementação do 5G, com redes e serviços de alta qualidade, inclusive tendo sido reconhecido recentemente pela OpenSignal como o país com a terceira maior velocidade nessa tecnologia. Para essa tendência se manter em marcha crescente, as operadoras precisam de condições para manter esse padrão de forma sustentável. A faixa de 6 GHz é a resposta natural para essa necessidade, permitindo que o país siga liderando a transformação digital na região e no mundo na próxima década.

As operadoras brasileiras ainda enfrentam obrigações significativas decorrentes do leilão do 5G, com compromissos de investimento até 2030. A GSMA alerta que globalmente o custo do espectro representa hoje cerca de 7% da receita das operadoras, um aumento de 63% na última década. Para garantir a viabilidade dos novos investimentos, é fundamental que a data, as condições e o preço de um novo leilão sejam factíveis.

O 6G não se estabelecerá apenas por ser uma sequência numérica. Para torná-lo realidade é preciso cautela e discussões extensas com o setor privado, propiciando um ambiente de investimentos adequado, com segurança jurídica e planejamento de longo prazo como pilares centrais.

* Lucas Gallitto é Diretor para América Latina, GSMA

* Luiz Felippe Zoghbi é Diretor de Espectro, GSMA

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