ANUNCIE AQUI
Luciano Borges
22 de out, 2025, 11:49
Os pais dos 10 garotos vítimas do incêndio do Ninho do Urubu foram informados da decisão do juiz Tiago Fernandes de Barros quase ao mesmo tempo, quando Darlei Pisetta - pai do goleiro Bernardo, que morreu aos 14 anos - publicou o texto completo no grupo de WhatsApp. A indignação foi geral.
"É uma falta de respeito. Como uma tragédia como essa não tem um culpado?", disse Cristiano Esmério de Oliveira, pai do goleiro Cristian, morto aos 15 anos.
A reação da mãe do volante Jorge Eduardo, vítima a uma semana de completar 16 anos, foi física.
"Eu li no grupo e minha nora [esposa do filho mais velho Carlos Augusto] me ligou contando. Me deu ânsia de vômito e uma dor forte de cabeça. Fiquei revoltada", contou Alba Valéria dos Santos Pereira.
A janela da casa de Alba, em Além Paraíba-MG, dá de frente para o cemitério onde Jorge Eduardo está enterrado.
"Eu olho para lá e lembro que meu filho está lá. Pensei: 'O que vou falar para ele?'. Eu acredito na Justiça, mas estou muito triste", lamentou.
Dona Josete Adão, avó e mãe adotiva do atacante Isaias Coelho da Silva, vive isolada em Florianópolis. Há sete anos ela passar por consultas com psicóloga e psiquiatra. Ela se sente sozinha e se informa pelo grupo dos pais das vítimas.
"Como se fosse assim: os 10 meninos foram os culpados. Eles causaram a desgraça. Para quem julgou, esses meninos são menos que nada. Um lixo jogado no canto e adeus", emocionou-se.
"Mataram 10 crianças e ninguém tem culpa. O poder é quem manda. Mas a Justiça de Deus não falha", completou Cristiano.
A Afavinu (Associação dos Familiares de Vítimas do Incêndio do Ninho do Urubu) vai recorrer na segunda instância da decisão da 36ª Vara Criminal que inocentou todos os réus.
Darlei Pisetta, que mora em Timbó-SC, não aponta culpados: "Isso são o Flamengo e a Justiça que têm que decidir".
Mas ele resume sua revolta da seguinte forma: "Recebi ontem a notícia com indignação. Foi muito semelhante ao dia que recebi a notícia da morte de meu filho. Uma sensação de impotência. Parece que a justiça não está nem ligando para as famílias".
Darlei sabe quem deveria ter cuidado do filho.
"Quando entregamos nossos filhos ao Flamengo com a responsabilidade de formá-los, estávamos certos que estavam seguros. Agora, após a morte de 10 meninos ninguém é responsável? Em que mundo vivemos? As vidas das pessoas não importam mais? É um absurdo o que está sendo feito", reclamou.
Sara Cristina Matos, mãe de Pablo Henrique, que morreu aos 14 anos, disse que hoje sente "ódio" pela situação.
"Errados somos nós, os pais, de termos deixado os meninos na responsabilidade do Flamengo. Eu não tinha raiva do Flamengo. O Pablo era encantado com o clube e só falava bem. Hoje, estou com muito ódio", finalizou.
Edson Matos, pai de Pablo, apoia a entrada do recuso na Justiça: "Nós temos que dar um jeito nisso".
Procurado, o time rubro-negro informou que não vai se pronunciar sobre a decisão da Justiça.
Associação de Familiares protesta
Em nota emitida nesta quarta-feira (22), a Afavinu (Associação dos Familiares de Vítimas do Incêndio do Ninho do Urubu) protestou contra a decisão da Justiça do Rio de Janeiro.
No comunicado, a entidade classificou a decisão judicial como uma "grave afronta à memória das vítimas e ao sentimento de toda a sociedade".
A Afavinu também disse que "seguirá em busca de Justiça" e "na esperança de que a decisão seja revista"
"(A Afavinu) Reitera seu pedido de que o processo seja acompanhado com rigor pelos órgãos de recurso para que a sociedade receba a mensagem de que tais condutas não ficarão impunes", escreveu a associação.
Leia a nota completa:
A Afavinu (Associação dos Familiares de Vítimas do Incêndio do Ninho do Urubu), que congrega mães, pais, irmãos e demais familiares das dez vítimas fatais da tragédia ocorrida em 8 de fevereiro de 2019 no alojamento da base do Flamengo, manifesta seu profundo e irrevogável protesto diante da decisão proferida pela 36ª Vara Criminal da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro, que absolveu em primeira instância todos os sete acusados no processo criminal resultante dessa tragédia.
Entendemos que o papel da Justiça não se limita à aplicação da lei em casos individuais, mas exerce uma função pedagógica essencial na prevenção de novos episódios semelhantes, no envio de mensagem clara à sociedade de que negligências de segurança, falhas na estrutura técnica e irresponsabilidades não serão toleradas - e não cumprir essa função configura, para nós, grave afronta à memória das vítimas e ao sentimento de toda a sociedade.
Relembremos que os jovens falecidos - adolescentes em formação, atletas da base - dormiam em contêineres improvisados, sem alvará adequado, com indícios de falha elétrica, grades de janelas que dificultavam a saída, entre outras condições de insegurança.
A absolvição dos acusados, sob o argumento de que não se conseguiu individualizar condutas técnicas ou provar nexo causal penalmente relevante, renova em nós o sentimento de impunidade e fragiliza o mecanismo de proteção à vida e à segurança dos menores em entidades esportivas, formativas ou assistenciais no país.
A Afavinu seguirá em busca de Justiça e na esperança de que a decisão seja revista e assim reitera seu pedido de que o processo seja acompanhado com rigor pelos órgãos de recurso para que a sociedade receba a mensagem de que tais condutas não ficarão impunes.
Para que a morte destes adolescentes não seja em vão, seguiremos exigindo dos órgãos de fiscalização (municipal e estadual) e do poder público em geral - inclusive esporte, juventude e fiscalização de edificações - a implementação de medidas concretas para tornar obrigatórias auditorias frequentes e manutenção preventiva em alojamentos de atletas, jovens/menores em todos os clubes do País, de modo que tragédias irreparáveis, como a do Ninho do Urubu, não se repitam.
Reafirmamos que a memória dos jovens não será silenciada: os nomes deles, suas vidas interrompidas em circunstâncias evitáveis, exigem que continuemos vigilantes.
A decisão judicial, ao não reconhecer a responsabilização penal, representa uma falha grave do sistema de justiça em seu papel pedagógico - e como tal, reforça em nós o dever de mobilização civil para fortalecer os mecanismos de fiscalização, transparência e responsabilidade em espaços de formação de jovens.
Conclamamos a imprensa, entidades de defesa dos direitos humanos, movimentos esportivos e toda a sociedade a não permitir que essa decisão se transforme em precedente de que a segurança de crianças e adolescentes pode ser tratada com negligência criminosa. A vida dos nossos filhos tem um valor irreparável e em memória aos 10 garotos inocentes lutaremos, até o fim, por uma Justiça efetiva e capaz de inibir novos delitos com sentenças que protegem as vítimas e não os algozes.
Aos torcedores do Flamengo e a todos que amam o futebol e as crianças, a Afavinu faz um apelo: que a paixão pelos clubes se traduza também em compromisso com a vida. Que o amor pelo esporte, que move milhões de corações, seja também amor pela segurança, pela ética e pela memória daqueles dez meninos que sonhavam em vestir, com orgulho, a camisa rubro-negra ou de outros mantos sagrados. O verdadeiro espírito esportivo exige empatia, responsabilidade e humanidade. Honrar esses valores é proteger as futuras gerações de atletas e garantir que o futebol continue sendo motivo de alegria - nunca de luto.

há 2 meses
21








Portuguese (BR) ·