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Isabela Moro
16 de out, 2025, 03:00
Cabo Verde vai disputar uma Copa do Mundo pela primeira vez na história. A seleção confirmou a vaga ao vencer Essuatíni por 3 a 0 na última segunda-feira (13) e terminar as classificatórias africanas no primeiro lugar do Grupo D. A conquista foi tão grande que os Tubarões Azuis, como a equipe cabo-verdiana é conhecida, foram condecorados com a máxima distinção do país.
A conquista é muito mais que esportiva. É sobre identidade. O presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, concedeu entrevista exclusiva à ESPN e falou sobre a importância da classificação para o arquipélago: “Cabo Verde era um país improvável e hoje, com esta vitória, nós abrimos caminho a todas as possibilidades”.
Durante as celebrações, José Maria Neves chegou a dizer que a vaga na Copa do Mundo de 2026 era como uma segunda independência – a primeira, oficial, foi em 1974. “Quando nós conquistamos a independência, ninguém acreditava em nós. Não temos recursos naturais tradicionais, só temos as cabo-verdianas e os cabo-verdianos. Muito sol, muito vento e muito mar. Por isso é que somos tubarões azuis. Então, ao ganhar, mostramos que a independência valeu a pena e que temos todas as condições para, nos próximos 50 anos, fazermos muito mais e melhor por Cabo Verde e mostrar que, sim, Cabo Verde é um país possível e temos que continuar a trabalhar arduamente para construir a prosperidade".
O primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, também celebrou a vaga em resposta à ESPN: “Concretizamos uma ambição e um desejo, um sonho de Cabo Verde há muitos anos”.
O chefe do governo afirmou que a conquista é essencial para aumentar o grau de autoestima em relação ao país. “Aquilo que poderia parecer impossível com um país como Cabo Verde, tornou-se possível. Então, em todas as outras áreas pode se tornar possível, o próprio reflexo na vida pessoal é [a mensagem] de que ultrapassem os limites, que não fiquem presos às dificuldades que existem na vida. Essa é a mensagem que nós temos tentando passar, para que o próprio cabo-verdiano confie mais em si próprio e nas suas possibilidades e capacidades.”
País em festa com a vaga
A população está em êxtase com a conquista. “Acho que todo cabo-verdiano estava na rua comemorando [na segunda-feira]”, brincou o presidente José Maria Neves, que tem papel de chefe de Estado. O governo havia decretado ponto facultativo, tanto no jogo contra Líbia, dia 8, quanto contra Essuatíni, que confirmou a vaga. O primeiro-ministro confirmou que a medida deve ser novamente adotada nos jogos do Mundial.
A classificação de Cabo Verde ao principal torneio de seleções do mundo passa pelos esforços federais para apoiar a equipe nacional, principalmente no âmbito financeiro. O governo chegou a pagar os custos de viagens dos Tubarões Azuis durante as eliminatórias africanas, garantindo deslocamento de qualidade para Angola, por exemplo, que fica a mais de 10 horas de voo de distância.
“Mas há um outro trabalho, mais de fundo, que tem sido feito por meio da prospecção, que dá a possibilidade de conseguir identificar talentos em qualquer parte do mundo”, adicionou Ulisses Correia e Silva. “Depois há todo um trabalho que vem desde a iniciação esportiva nas escolas, nos clubes, criar as condições para irmos desenvolver este viveiro de talentos e casarmos as duas coisas: aquilo que nós produzimos internamente em termos de talentos residentes no território nacional, aquilo que nós temos disponível a nível da nossa diáspora".
Cabo Verde é o segundo menor país (em termos de população) a se classificar para um Mundial. São cerca de 525 mil habitantes, atrás apenas dos 353 mil da Islândia em 2018. Porém, há cerca de 1,5 milhão de cabo-verdianos morando fora do país, segundo estimativa do Instituto Nacional de Estatística de lá. A maioria está em território estadunidense, mas também são muito presentes em Portugal, França, Holanda e outros mais de 40 países. “Nós estaremos em casa nos Estados Unidos”, avaliou o presidente José Maria Neves.
Maioria do elenco histórico que levou à Copa não mora em Cabo Verde
Essa característica cabo-verdiana de diáspora foi fundamental para a conquista da vaga. O primeiro-ministro relatou que “nós já temos experiência de alguns jogadores que estão na seleção de futebol de Cabo Verde e que, antes de ingressarem na seleção, nem sequer conheciam Cabo Verde”. Dos 23 relacionados para o último jogo, treze nasceram fora do arquipélago.
A expectativa do governo é usar o trabalho de prospecção de talentos vista no futebol também em outras áreas do país. “Se nós conseguirmos recrutar, a nível global, talentos para o esporte, podemos recrutá-los também para a ciência, para a medicina, para a tecnologia, para a academia, para atividade relacionada com os negócios. Tendo em conta que é um país pequeno, tem sempre alguns déficits em termos de quantidade de recursos humanos altamente qualificados. E isto permite nos fazer esta projeção de um país além de fronteiras”, explicou Ulisses Correia e Silva.
Quanto à Copa do Mundo de Canadá, Estados Unidos e México, tanto o presidente quanto o primeiro-ministro falaram em representar Cabo Verde com dignidade. “Quando entramos em campo são onze contra onze e noventa minutos de jogo. Teremos que estar em condições de competir contra qualquer um. É claro, nas condições de competitividade que nós temos”, projetou o chefe do governo.

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