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Altos funcionários do governo dos Estados Unidos estão faltando à cúpula anual do clima das Nações Unidas pela primeira vez em 30 anos. E muitos executivos corporativos americanos parecem estar seguindo o mesmo caminho.
Embora poucos executivos tenham se juntado ao presidente Donald Trump ao chamar as mudanças climáticas de farsa, alguns sugeriram recentemente que talvez o tema não mereça tanta atenção quanto tem recebido.
A atitude deles não é exatamente de negação do clima, mas de rejeição à maneira como a questão tem sido apresentada — uma mudança drástica em relação à defesa e aos compromissos assumidos em cúpulas realizadas sob condições políticas diferentes.
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Os líderes das maiores empresas americanas já fizeram promessas de reduzir a poluição, formaram coalizões para financiar a transição energética e pediram aos governos que aprovassem leis para reduzir as emissões que aquecem o planeta.
Mas, na cúpula do clima da ONU deste ano, nenhum líder americano de destaque viajou para Belém, no Brasil — uma cidade na borda da floresta amazônica.
“Obviamente, isso tem a ver com o clima político nos Estados Unidos”, disse Sonia Dunlop, diretora executiva do Global Solar Council, uma organização do setor.
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Versões anteriores da cúpula atraíram CEOs influentes, como Tim Cook (Apple), Darren Woods (Exxon) e Brian Moynihan (Bank of America). A ausência de figuras como essas foi interpretada pelos participantes como mais uma confirmação de que os Estados Unidos, sob Trump, desviaram sua atenção dos esforços climáticos.
Woods esteve em um evento na sexta-feira, 7, em São Paulo, patrocinado em parte pela Câmara de Comércio dos EUA, mas faltou à cúpula de Belém — mesmo tendo participado de encontros anteriores em Baku (Azerbaijão) e Dubai (Emirados Árabes Unidos).
“Nossa empresa — e acho que a indústria em geral — não discorda do objetivo em si, em termos do que o mundo está tentando fazer com as emissões”, disse Woods no evento em São Paulo. “Acho que o nosso desafio, e onde há muito mais debate, é sobre como estamos tentando alcançar isso.”
O desafio da humanidade não deve ser enquadrado como “se livrar do petróleo e do gás”, disse ele, mas sim eliminar “as emissões associadas à queima de petróleo e gás”.
Esse tipo de posição tem sido perceptível durante a cúpula em Belém, enquanto o setor empresarial dos EUA tenta navegar o que alguns descrevem como um campo minado. Uma grande preocupação é que executivos que se comprometam publicamente com ações climáticas possam prejudicar suas empresas ao irritar Trump e seus assessores.
Desde que voltou ao cargo em janeiro, Trump tem desmantelado agressivamente os esforços federais relacionados ao clima.
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No primeiro dia de mandato, ele retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris e declarou uma emergência energética, usada para justificar novos projetos de combustíveis fósseis. Desde então, seu governo reduziu regulamentações ambientais, atacou o setor de energia renovável e incentivou a produção de carvão, gás e petróleo.
Neste ano, várias grandes empresas de tecnologia reconheceram que não cumprirão suas metas climáticas devido aos investimentos em centros de dados com alto consumo de energia, necessários para a inteligência artificial.
Mesmo antes de o segundo mandato de Trump começar, muitas das maiores instituições financeiras do país já haviam deixado suas alianças climáticas do setor.
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E, após criticarem Trump durante seu primeiro mandato por retrocessos nas políticas climáticas, muitos CEOs agora permanecem em silêncio.
“Talvez não valha a pena um CEO vir à COP para falar sobre o que já está fazendo”, disse Dan Carol, diretor sênior de finanças climáticas do Milken Institute, referindo-se à sigla da cúpula da ONU, chamada Conferência das Partes (COP).
Algumas grandes empresas americanas enviaram outros executivos a Belém — os diretores de sustentabilidade do Google, Microsoft, Amazon e Mastercard participaram da cúpula.
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O grupo de Carol, uma organização de pesquisa criada por Michael Milken, o financista de títulos que foi perdoado por Trump, realizou um simpósio de investidores em clima no domingo e na segunda-feira, em São Paulo — a mais de 2.400 km de Belém. Foi um dos vários eventos corporativos relacionados ao clima realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo, as duas metrópoles cosmopolitas do sudeste do Brasil.
Alguns executivos de energia dos EUA, como Woods, da Exxon, participaram desses eventos em vez da cúpula. Além do fator Trump, visitantes deste ano também foram prejudicados pela escassez de quartos de hotel e outras limitações de infraestrutura em Belém.
Carol disse que os investidores ainda estão interessados em projetos que reduzam emissões de gases de efeito estufa. Mas os tipos de investimento estão mudando — alguns claramente em pausa — à medida que a longa influência da Casa Branca se faz sentir nas conversas no Brasil.
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Um exemplo de como os executivos corporativos estão mudando o tom — pelo menos na visão de alguns cientistas — surgiu no mês passado em um memorando de Bill Gates, cofundador da Microsoft.
Nele, Gates alertou contra o “alarmismo climático” e afirmou que isso “não levará à extinção da humanidade”. Muitos interpretaram seus comentários como uma reversão de suas posições anteriores, e Trump e vários republicanos celebraram isso como uma vitória.
Mas, poucos dias antes da cúpula em Belém, Gates afirmou no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), em Pasadena, que qualquer sugestão de que ele teria mudado sua posição sobre o problema climático era “uma interpretação gigantescamente equivocada do memorando”.
Gates disse que pretende gastar ainda mais dinheiro em mitigação climática.
“Eu não achei que o memorando iria converter os descrentes em crentes — e, de fato, não converteu”, afirmou.
A tentativa de Gates de esclarecer sua posição só intensificou as preocupações de líderes mundiais, ambientalistas e outros de que os líderes empresariais estão recuando sob pressão do governo Trump.
A Casa Branca desdenhou da reunião em Belém. “O presidente Trump não colocará em risco a segurança econômica e nacional do nosso país para perseguir metas climáticas vagas que estão matando outras nações”, disse Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, ao The New York Times neste mês.
Sebastian Buckup, diretor-geral do Centro de Natureza e Clima do Fórum Econômico Mundial, disse não acreditar que exista um “boicote motivado por posições políticas”. Mas observou que, à medida que o debate sobre o clima se tornou mais rotineiro, “muitas dessas questões desceram na hierarquia das prioridades das empresas”.
Entre os ausentes notáveis da cúpula da ONU deste ano estão alguns dos principais executivos do setor elétrico dos EUA.
Calvin Butler, presidente e CEO da Exelon e presidente do Edison Electric Institute — principal organização do setor —, não participou da cúpula devido a conflitos de agenda, segundo um porta-voz. Ele disse recentemente ao Times que continua comprometido em “direcionar o que fazemos rumo à emissão zero”.
Vários bancos de investimento e grandes empresas de tecnologia também enviaram executivos a eventos em São Paulo e no Rio de Janeiro antes da reunião em Belém.
No evento de Milken em São Paulo, o governador da Califórnia, Gavin Newsom (democrata), criticou duramente o governo Trump por se recusar a enviar representantes à cúpula.
Ele também disse estar “surpreso por nem todos os governadores estarem aqui” e que os executivos corporativos não deveriam se afastar de eventos como a cúpula do clima, apesar das possíveis represálias de Trump.
“Nós reagimos”, disse Newsom antes de seguir para Belém.
Na abertura da reunião de líderes antes da principal cúpula do clima da ONU, o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, anunciou novos investimentos para enfrentar os problemas climáticos.
Bloomberg prometeu investir US$ 100 milhões, por meio de sua fundação Bloomberg Philanthropies, para acelerar esforços de redução das emissões de metano — um dos gases que mais aquecem o planeta.
Alguns executivos de outros países também foram a Belém. Entre eles, estava o bilionário australiano Andrew Forrest, fundador da empresa de mineração Fortescue.
Entre pancadas de chuva, Forrest recebeu convidados em seu barco movido a amônia, que emite menos poluentes que embarcações tradicionais. O ex-vice-presidente Al Gore estava entre eles.
Forrest disse ter ido à reunião da ONU para mostrar que ainda há líderes empresariais comprometidos com o enfrentamento das mudanças climáticas.
Ele lamentou que um acordo internacional para reduzir as emissões do setor naval tenha sido interrompido por “um certo presidente que não quer ser desmentido pelo resto do mundo” — uma referência ao governo Trump, que cancelou as negociações.
Mas Forrest acrescentou que a economia da energia limpa está avançando na direção certa e disse estar otimista de que as próximas décadas verão reduções rápidas nas emissões que aquecem o planeta.
“A história sempre entrega resultados”, disse ele. “No fim, o que é certo prevalecerá.”
c.2025 The New York Times Company

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