Marcos Lisboa: País protege empresas ineficientes e freia crescimento

há 2 meses 22
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O Brasil mantém um modelo de proteção a empresas ineficientes que, segundo o economista Marcos Lisboa, compromete o crescimento e a produtividade do país.

“A gente quer dar regime tributário favorecido para empresas pequenas e médias. Se a empresa quebra, fala-se ‘veja bem, querido, ajuda aqui, não vamos deixar essa empresa fechar porque ela emprega tanta gente’. Tudo bem, é a opção brasileira, mas isso significa que o país vai crescer menos”, afirmou.

Lisboa compara a realidade brasileira com a de outros países. “No resto do mundo, mesmo em países com muito Estado, como a França, surgem muitas empresas todo ano, a maioria fracassa, mas algumas crescem, inovam em gestão, tecnologia e produtos. Eventualmente, algumas antigas perdem o bonde da mudança e quebram. Esse é o mundo duro da competição, mas é o mundo que leva aos ganhos de produtividade.”

O economista critica a prática de proteger negócios ineficientes.

“Cada vez que falam em ajudar e proteger a pequena empresa, falam: tudo bem. Isso é proteger a gripe, a doença, o fracasso. No Brasil, queremos proteger a empresa que não deu certo e matamos os possíveis casos de sucesso. O resultado é uma indústria velha, e o fracasso da indústria brasileira, a meu ver, é responsabilidade dela mesma.”

O episódio do Outliers Infomoney contou com a apresentação dos hosts Clara Sodré e Fabiano Cintra, que entrevistaram Lisboa sobre políticas públicas, produtividade e lições de economia internacional.

Agro: exceção à proteção e foco em produtividade

Lisboa destaca o setor agropecuário como exemplo de sucesso no país.

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“O agro fez o contrário da agenda da indústria tradicional, que buscava fechar a economia, obter subsídios e crédito mais barato, e proibir a competição externa. O agro investiu em gente. A Embrapa formou profissionais nas melhores universidades do mundo para tratar de problemas tecnológicos e gerar ganho de produtividade. Muitas empresas do agro quebraram, mas o setor avançou.”

Para o economista, a lição é clara: é impossível buscar ganho de produtividade sem aceitar o fracasso. “Você não pode querer ganhar produtividade protegendo ineficientes. Várias empresas quebraram no agro, e foi isso que gerou desenvolvimento.”

Segundo ele, essa mentalidade também se reflete no ensino e na pesquisa econômica nacional. “O pensamento econômico dominante nas universidades brasileiras é muitas vezes simplista, superficial e preconceituoso. Falta evidência empírica, falta ciência útil.”

Experiências internacionais como referência

O economista exemplifica modelos bem-sucedidos de desenvolvimento e produtividade no exterior, citando Coreia do Sul, Irlanda, Chile e Austrália.

“Na Austrália, no começo dos anos 1980, a produtividade estava ficando para trás. Era um país protecionista, com subsídios e uma indústria fechada. O Partido Trabalhista abriu a economia gradualmente, reformou a política educacional, melhorou a governança e investiu em capital humano. Hoje, a Austrália passou 30 anos sem conhecer recessão.”

Lisboa ressalta que políticas públicas não podem servir apenas para proteger empresas, mas sim para incentivar inovação e concorrência. “O Estado é fundamental para pesquisa, inovação e defesa da concorrência, mas não para evitar competição ou conceder benesses. É assim que países saltam em produtividade.”

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Ele destaca ainda que a abordagem de abrir a economia de forma gradual, com base em evidências, é mais eficaz do que soluções abruptas. “O caso australiano mostra que políticas públicas de longo prazo, transparência e avaliação contínua podem gerar resultados consistentes, diferente do modelo protecionista brasileiro.”

Lisboa também cita o Chile e países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, que conseguiram melhorar renda per capita e produtividade nas últimas décadas.

“São histórias de sucesso que demonstram que mercado e Estado podem coexistir de forma eficaz, se houver estratégia e evidência.”

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