Luxemburgo vê espaço, IA e serviços digitais como prioridades

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Jill Engel, encarregada de negócios de Luxemburgo no Brasil.Jill Engel, encarregada de negócios de Luxemburgo no Brasil. Foto: divulgação

Luxembrurgo é um dos menores países da Europa Ocidental em termos territoriais e em população, mas um dos mais ricos, quando se olha o poder de compra da população e a renda. Com uma economia tradicionalmente centrada em serviços, sobretudo no setor financeiro, o Grão-Ducado de Luxemburgo tem um dos melhores padrões de vida da Europa e está longe de problemas típicos de países em desenvolvimento. Teria, portanto, todas as razões para não se preocupar com o futuro nem mudar muita coisa.

Ainda assim, o país vem se destacado por uma forte guinada em direção à inserção de sua economia no ecossistema digital e tecnológico. No que se refere ao setor de telecomunicações, é sede de uma das principais operadoras de satélite do mundo, a SES, o que coloca Luxemburgo como protagonista dos debates sobre espaço e soberania.

Foi justamente em um evento realizado pela SES na Embaixada de Luxemburgo, em Brasília, que TELETIME conversou com a encarregada de negócios e responsável temporária pela representação do país no Brasil, Jill Engel, em que ela falou sobre a estratégia de longo prazo e a política tecnológica de Luxemburgo.

TELETIME – Quais iniciativas o governo de Luxemburgo toma para fomentar a inovação tecnológica?

Jill Engel – Luxemburgo promove a inovação tecnológica por meio de um ecossistema voltado para o desenvolvimento de setores como espaço, digital, IA, health tech e fintech, entre outros. Isso se baseia em infraestrutura digital avançada, incluindo um supercomputador voltado para negócios e o Serviço Nacional de Dados de Luxemburgo (LNDS), que permite soluções impulsionadas por dados, além do Clarence, a nuvem soberana desconectada de Luxemburgo. As empresas têm oportunidades para inovar com tecnologias digitais de ponta e desenvolver soluções sustentáveis baseadas em dados.

Apoiar esta transição para uma economia mais digital e sustentável é prioridade para Luxemburgo. Queremos ser a economia de dados mais confiável e conectada da Europa. Além disso, a Universidade de Luxemburgo abriga vários centros públicos de pesquisa voltados para inovação, e o país incentiva fortemente atividades de Pesquisa e Desenvolvimento para empresas.

Qual é a relevância da tecnologia na estratégia de desenvolvimento econômico?

A tecnologia digital ocupa posição central na estratégia de desenvolvimento econômico de Luxemburgo. O país busca atender à necessidade de infraestrutura de dados, expertise e serviços em diversos campos econômicos. Identificamos setores-chave, incluindo tecnologias limpas, tecnologias de saúde, mobilidade inteligente, tecnologias quânticas e, por fim, o setor espacial.

A SES, uma das principais empresas do setor de satélite da Europa, é de Luxemburgo. Qual a relevância desse setor?

O compromisso de Luxemburgo com o setor espacial remonta à década de 1980, com a fundação da Société Européenne des Satellites (SES), que se tornou um dos principais provedores de serviços de satélite do mundo. O objetivo era e continua sendo tornar a tecnologia espacial um dos pilares da economia do país. Desde 2016, com a introdução de um marco legal abrangente, o ecossistema espacial se desenvolveu significativamente. Atualmente, o país abriga cerca de 80 empresas públicas e privadas relacionadas ao espaço, empregando mais de 1.400 pessoas.

O setor espacial ganhou novo dinamismo nos últimos anos, impulsionado por avanços tecnológicos, miniaturização e redução dos preços de lançamento, facilitando novas iniciativas de negócios. Uma reunião do Conselho Ministerial da Agência Espacial Europeia (ESA) renovou a estratégia e as ambições de Luxemburgo para o setor espacial civil, apoiada por um pacote financeiro correspondente.

Como você vê a importância da soberania no setor de satélites e como garantir que a Europa permaneça relevante no cenário competitivo atual?

Uma consequência dos avanços tecnológicos recentes no setor de satélites é a redução significativa do custo de acesso ao espaço. O surgimento de empresas New Space tornou a indústria mais dinâmica, com mais participantes e uma variedade de aplicações emergentes. O aumento da concorrência traz desafios como o crescente congestionamento das órbitas, levantando questões sobre a sustentabilidade das atividades espaciais.

Regulamentações nacionais e europeias são ferramentas essenciais para enfrentar esses desafios. Enquanto a tecnologia evolui rapidamente, a regulação muitas vezes não acompanha o ritmo. A falta de regulação pode gerar consequências negativas para usuários e o meio ambiente, enquanto o excesso pode aumentar custos e frear a inovação. Luxemburgo busca um equilíbrio pragmático, promovendo o crescimento e garantindo atividades espaciais responsáveis.

No ecossistema nacional, o número de empresas do setor espacial cresceu significativamente nos últimos 10 anos. Embora a SES continue relevante, o ecossistema se diversificou em atividades e aplicações. O cenário geopolítico atual aumentou a demanda por soluções soberanas de satélite e serviços baseados em espaço. Um exemplo é o IRIS2, projeto europeu para criar uma constelação de conectividade via satélite segura e resiliente, com Luxemburgo apoiando totalmente a iniciativa e a SES liderando o consórcio SpaceRise, selecionado pela Comissão Europeia para construir e operar essa constelação.

Como Luxemburgo aborda regulação e desenvolvimento em IA, data centers e constelações globais de satélites?

Luxemburgo é terreno fértil para inovação e está pronto para novas iniciativas em tecnologias emergentes. O país abriga o supercomputador MeluXina, projetado para apoiar a inovação empresarial. Diferente da maioria dos HPCs, voltados para pesquisa acadêmica, o MeluXina está disponível para empresas e é hospedado em um data center Tier IV altamente seguro, garantindo proteção única aos dados.

Outro foco é o desenvolvimento de expertise em computação quântica. Computadores quânticos estão sendo desenvolvidos para resolver problemas complexos demais para computadores clássicos. Luxemburgo está desenvolvendo um computador quântico nacional, com lançamento previsto para 2026.

O país também abriga uma das primeiras AI Factories da UE, estimulando a adoção de IA com abordagem voltada para negócios, acelerando a jornada das empresas em IA.

Como você avalia a compra da Intelsat pela SES e o que isso significa para os interesses do país?

O setor de satélites passa por transformação sem precedentes, com competição intensa de mega constelações e avanços tecnológicos rápidos. Nesse contexto, operadores estabelecidos enfrentam pressão crescente.

A aquisição da Intelsat pela SES é um passo estratégico para reforçar sua posição global no setor de satélites, fortalecendo o papel de Luxemburgo na indústria ao ampliar talentos e capacidades operacionais, marcando um marco importante para o país.

Além da aquisição, outras iniciativas reforçam o ecossistema espacial do país, como o lançamento do GovSat-2 para expandir a capacidade soberana de satélites, importante para defesa e parceiros internacionais. Luxemburgo também investe em um dos três centros de controle IRIS2, fortalecendo expertise e infraestrutura terrestre para operações de satélite. Essas iniciativas, junto a uma SES maior e mais forte, consolidam Luxemburgo como líder espacial na Europa e no mundo.

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