Liderar a autonomia: o novo desafio dos executivos na era da IA que decide

há 2 meses 26
ANUNCIE AQUI

A inteligência artificial deixou de ser novidade e passou a ser um dilema. O que o Gartner IT Symposium/Xpo 2025, em Orlando, deixou evidente é que a questão agora não é mais o que a IA pode fazer, mas até onde nós, humanos, estamos prontos para acompanhá-la.

O evento deste ano trouxe uma virada de perspectiva. A narrativa otimista da IA como ferramenta de produtividade cedeu espaço a uma discussão mais profunda: como garantir controle, ética e propósito em sistemas que aprendem e tomam decisões sem supervisão constante.

E o ponto central, repetido em diferentes palestras, é que não estamos apenas vivendo uma revolução tecnológica, estamos lidando com a autonomia das máquinas e a responsabilidade de quem as comanda.

O conceito provocativo de negócios autônomos, apresentado por Frank Buytendijk, do Gartner Futures Lab, simboliza bem essa transição. Empresas que aprendem com seus próprios dados, que adaptam processos, produtos e preços em tempo real, e que caminham para operar como ecossistemas vivos, capazes de agir quase sem intervenção. Mas o que parece avanço inevitável também traz uma nova camada de vulnerabilidade: quem supervisiona a decisão da IA e com quais limites?

Essa pergunta ecoou em praticamente todos os painéis. Falou-se em "supervisão ética", em "engenharia de contexto", em "IA responsável". Termos que, para quem está na linha de frente da gestão de tecnologia, como CIOs, por exemplo, deixam de ser conceitos abstratos e viram parte do dia a dia.

O impasse entre regulação e inovação

Enquanto as organizações testam seus primeiros passos rumo à autonomia, os governos correm atrás para impor fronteiras. Em apenas um ano, mais de mil legislações sobre IA foram propostas em todo o mundo. O Gartner resumiu essa tensão com uma imagem precisa: "a força imparável da IA colidindo com o objeto imóvel da lei." De um lado, a inovação avança em ritmo exponencial; do outro, a regulação tenta acompanhar com marcos baseados em risco, privacidade e transparência.

A verdade é que não há lei capaz de prever todos os cenários que a IA já é capaz de criar. O que cabe às empresas, e especialmente aos líderes de tecnologia, é assumir a governança como parte da inovação, não como etapa posterior. Isso exige incluir jurídico, compliance e até RH desde o início dos projetos, porque governar máquinas que decidem é tão complexo quanto liderar pessoas que as utilizam.

Outro ponto que despertou atenção no Gartner 2025 foi a inevitável fusão entre autonomia e talento humano. Ao contrário do que muitos previam, a IA não está substituindo pessoas, está transformando os papéis que elas ocupam.

Profissionais juniores passam a entregar resultados de seniores com apoio da IA, enquanto seniores multiplicam sua capacidade com automação inteligente. A linha entre supervisão e execução está se tornando mais tênue, e isso muda completamente o papel do líder.

O paradoxo da autonomia: mais máquinas, mais humanidade

A liderança, neste novo cenário, não é mais quem "diz o que fazer", mas quem cria o ambiente para que humanos e máquinas tomem as decisões certas, com propósito e responsabilidade. É um modelo de gestão baseado em confiança, dados, ética e governança humana. E, talvez, este seja o verdadeiro significado da autonomia corporativa: não eliminar o fator humano, mas elevá-lo.

O Gartner foi direto em sua conclusão: é hora de escapar da tirania do pragmatismo. O líder que busca apenas eficiência perderá relevância. É preciso visão, projetar a organização do futuro com base na convivência entre inteligências humanas e artificiais, não na substituição de uma pela outra.

A próxima década não será sobre automação, e sim sobre autonomia. E, paradoxalmente, quanto mais inteligentes forem as máquinas, mais essencial se tornará o discernimento humano para supervisioná-las. O negócio autônomo é, afinal, o mais humano de todos, porque devolve às pessoas o tempo e o foco que a burocracia retirou. Mas ele também é o que mais exige líderes dispostos a repensar poder, controle e confiança em uma nova era de decisões inteligentes.

Vinícius Boemeke, CEO e cofundador da Pulsus.

Ler artigo completo