Fim das Tarifas recíprocas: e o Brasil?

há 2 meses 28
ANUNCIE AQUI

Os impactos econômicos das tarifas recíprocas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil, iniciadas em abril de 2025 com uma alíquota base de 10% e elevadas a 50% em julho, continuam a reverberar na economia nacional. Economistas estimam perdas anuais de até US$ 15 bilhões na balança comercial e uma redução de 0,5% a 1,2% no Produto Interno Bruto (PIB) para 2025, equivalentes a R$ 175 bilhões a R$ 420 bilhões, dependendo da duração das medidas. Apesar de uma recente ordem executiva que isenta parcialmente produtos agrícolas da tarifa base, a sobretaxa de 40% persiste, agravando pressões inflacionárias e cambiais.

A política tarifária, justificada pela Casa Branca como resposta a desequilíbrios comerciais e barreiras não tarifárias, afeta diretamente o segundo maior parceiro comercial do Brasil, responsável por 12% das exportações totais em 2024 (US$ 39 bilhões). Analistas do Bradesco e do Santander projetam uma contração de 15% a 30% nas vendas para os EUA, com impactos concentrados no agronegócio, siderurgia e manufatura. “Essa medida representa um choque brutal, o maior desde os anos 1930, com efeitos desproporcionais para economias emergentes como a brasileira”, avalia o economista Paulo Gala, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Setores Mais Afetados e Projeções de Perdas

Os setores exportadores enfrentam reduções significativas em receita e competitividade, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e análises do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). A tabela abaixo resume os principais impactos:

SetorExportações para EUA (2024, US$ bilhões)Queda Projetada (2025)Impactos Específicos
Agronegócio15,220-30%Perdas de US$ 3-4,5 bi em soja, café e carne bovina; alta de 27,93% nas exportações de carne no 1º semestre revertida.
Siderurgia e Metais8,410-20%Inviabilização de vendas de aço e alumínio (já com 25% sob Seção 232); impacto em US$ 1,5 bi.
Manufatura (Aviões, Autopeças)12,515-25%Embraer e setor automotivo perdem US$ 2-3 bi; competitividade reduzida em 50%.
Petróleo e Derivados3,025-35%Exposição de empresas como Cosan; busca por mercados asiáticos com margens menores.

Fontes: Secex/MDIC, Bradesco e BTG Pactual.

O agronegócio, que representa 40% das exportações para os EUA, é o mais vulnerável. A carne bovina, com vendas de US$ 1,287 bilhão no primeiro semestre de 2025 (alta de 99,8% ante 2024), pode registrar retração de 20%, segundo a Associação Brasileira da Indústria da Alimentação (Abia). No setor aéreo, a Embraer é citada como a empresa mais impactada, com dependência de 20% do mercado norte-americano. A siderurgia, já pressionada pela desaceleração chinesa, vê exportações de aço cair 8,5% em receita desde março.

Pressões Macroeconômicas e Respostas Governamentais

A desvalorização do real, projetada em R$ 5,70 até o fim de 2025 pela MB Associados, eleva o custo de importações essenciais como fertilizantes e combustíveis, adicionando 0,35 a 2 pontos percentuais à inflação (IPCA estimado em 5,1% a 5,5%). O Banco Central respondeu com elevação da Selic para 14,25%, enquanto o superávit comercial pode encolher de US$ 80 bilhões em 2024 para US$ 60 bilhões. No emprego, projeções indicam até 1,3 milhão de demissões em cadeias produtivas, especialmente no Centro-Oeste e Sudeste.

O governo brasileiro, por meio da Lei da Reciprocidade Econômica (nº 15.122/2025), autoriza retaliações proporcionais, como tarifas sobre medicamentos e máquinas americanas, mas prioriza negociações bilaterais. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, agendou reuniões com o Departamento de Estado dos EUA para novembro, propondo acordos setoriais. “O Brasil dialoga de boa-fé, destacando nosso déficit comercial acumulado de US$ 410 bilhões em bens e serviços nos últimos 15 anos”, afirmou o vice-presidente Geraldo Alckmin.

Oportunidades em Meio à Crise

Nem todos os efeitos são negativos. A tarifa de 145% sobre produtos chineses abre espaço para o Brasil capturar mercados na Ásia, com aumento projetado de 15% nas exportações de soja e milho para a China – o maior produtor mundial de soja pode elevar a safra 2024/25 para 169 milhões de toneladas. Acordos com a União Europeia e diversificação para Chile, México e Rússia também mitigam riscos, conforme o Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (Opeb).

Entidades como a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) e a Câmara Americana de Comércio (Amcham) manifestam preocupação com a interligação produtiva Brasil-EUA, alertando para prejuízos em investimentos e cadeias globais. “Uma quebra nessa relação traria impactos graves para empregos e produção”, adverte José Augusto de Castro, da AEB.

Em síntese, o tarifaço de Trump impõe desafios imediatos ao Brasil, com perdas setoriais bilionárias e freio no crescimento, mas reforça a necessidade de diversificação comercial. Analistas do UBS e Citi preveem que, com avanços diplomáticos, até 70% das perdas possam ser revertidas em 2026. O Itamaraty monitora o cenário de perto, em meio a críticas internacionais à OMC por violações às normas de comércio.

Ler artigo completo