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A antiga preocupação com o relógio já não é mais o foco do debate sobre crianças e telas.
Durante muito tempo, pais e educadores se concentraram no tempo de tela infantil, como se o problema fosse só a quantidade de horas por dia que os pequenos passavam na frente da TV ou usando celular e computador. Hoje, porém, especialistas apontam que a questão não se restringe ao tempo que as crianças gastam, pois envolvem também o que estão fazendo e com quem estão conversando naqueles minutos diários de celular e tablet liberados.
O InfoMoney conversou com duas especialistas sobre os impactos das telas e da inteligência artificial na infância. Ambas alertam sobre a importância da mediação adulta para que a inteligência artificial seja utilizada de forma produtiva e sem danos ao desenvolvimento emocional e cognitivo, como veremos a seguir.
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Crianças e telas: o tempo de uso é só o início
A psiquiatra infantil Maria Alice Carneiro ressalta que o tempo de tela infantil continua importante, mas hoje já divide o foco com o conteúdo consumido pela criança.
“Hoje, sabemos que o problema também envolve os tipos de jogos, redes sociais, videochamadas com amigos e muito mais. Há estudos que tentam entender o prejuízo das duas coisas, pois há diferenças enormes entre assistir a vídeos educativos e viver uma realidade paralela em jogos de imersão”, diz.
Maria Alice cita os RPGs, em que a criança encarna um personagem no mundo virtual, como exemplo de jogos que podem ser mais destrutivos do que os de construção, como Minecraft.
“Quanto mais elementos de realidade virtual embutidos, mais o cérebro é estimulado por recompensas rápidas – e maior o potencial de vício”, alerta.
O cérebro infantil e o excesso de estímulos
Na clínica, a psicóloga Isadora Fonseca recebe um tipo de paciente com frequência cada vez maior: crianças entre 5 e 7 anos com sintomas decorrentes do uso excessivo de telas na infância.
“É muita coisa para a criança processar ao mesmo tempo. E o que mais me preocupa são os vídeos curtos, como os do Reels, TikTok e YouTube Shorts. Eles criam o que chamamos de ‘reforço intermitente’ – o mesmo padrão dos jogos de azar”, explica.
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Segundo ela, esse mecanismo mantém a criança presa à tela porque a recompensa nunca é previsível.
“Como a criança não sabe qual será o próximo vídeo interessante, ela continua rolando a tela. Isso prejudica a atenção sustentada e a capacidade de se concentrar em uma mesma atividade por mais tempo”.
Esse excesso, avalia Isadora, é uma das principais causas dos impactos das telas observados hoje – de dificuldade de foco à irritabilidade e isolamento social.
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Do amigo imaginário ao artificial
Com o avanço da IA na vida dos pequenos, surgiu um novo tipo de vínculo emocional: o “amiguinho” com quem ela conversa entre um jogo e outro no celular dos pais.
Na psicologia, essas são as chamadas “relações parassociais”, que é quando a pessoa cria vínculos com algo que não devolve afeto real, explica Isadora Fonseca.
“Isso é ainda mais perigoso com crianças, porque elas aprendem por observação e modelo. Dependendo da interação com a IA, ela pode desenvolver vieses ou comportamentos distorcidos”, alerta a psicóloga.
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Essa situação ganhou destaque em 2024, quando a empresa Character.AI foi processada por uma mãe da Flórida pelo suicídio de seu filho de 14 anos. Como mostrou uma reportagem da CNN, o adolescente teria desenvolvido um relacionamento inadequado com chatbots da plataforma.
Pouco tempo depois, mais duas famílias entraram com ações conjuntas, acusando a empresa de permitir conteúdos sexuais e incentivar automutilação e violência. Isso fez com que a Character.AI passasse a adotar medidas de segurança para reduzir a exposição de menores a conteúdos sensíveis.
Para Isadora, casos como esse mostram como é fácil para as crianças confundir as fronteiras entre o real e o virtual. “Hoje, o risco é que esse ‘amigo artificial’ – que veio de fora e substituiu o imaginário – fuja de controle. No longo prazo, isso pode levar à intolerância, frustração e dificuldade de desenvolver habilidades sociais reais”.
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Maria Alice complementa que, em muitos casos, a IA entra na vida das crianças de forma sutil, embutida em aplicativos de uso diário e não apenas nos chatbots.
“O problema é que essa IA invisível pode reforçar os conteúdos danosos sem que os pais percebam”, diz.
Pais e cuidadores: diálogo, limites e vigilância constante
Embora pareça óbvio, é sempre bom lembrar que a intermediação de um adulto na relação de crianças com as telas é insubstituível, dizem as especialistas. Para ambas, o diálogo constante é bem mais eficaz do que a punição.
“Muitas vezes, basta estabelecer limites, sem precisar punir. O ideal é reduzir danos e construir um uso mais saudável, para que a criança entenda as razões por trás das regras”, diz Maria Alice.
A psiquiatra cita como exemplo os casos de transtornos alimentares, em que a falta de vigilância pode ter consequências sérias.
“Muitas crianças e adolescentes acabam buscando na internet e em ferramentas de IA dicas de dietas, restrições calóricas ou exercícios extremos, e os algoritmos passam a reforçar esse tipo de conteúdo”, explica. Por isso, os pais precisam estar atentos aos sinais, conversar com os filhos sobre o que estão assistindo e ajudar a “resetar” as recomendações das plataformas, pesquisando conteúdos mais saudáveis.
Aplicativos de controle parental, como o Google Family Link, podem ser aliados nessa tarefa, mas não substituem a presença e o discernimento dos adultos.
“Os pais devem conhecer os jogos e aplicativos que oferecem aos filhos. Um simples presente pode servir como um gatilho de vício, isolamento ou distorção da autoimagem ao longo do tempo”, diz Maria Alice.
Menos estímulo, mais imaginação
Para Isadora Fonseca, o caminho para o equilíbrio passa também por reaprender o valor da simplicidade.
“Quando em excesso, mesmo os brinquedos físicos tiram da criança a função simbólica, a criatividade. A infância precisa de espaço para imaginar, criar e inventar – menos é mais”, afirma.
Mas isso não significa abolir a tecnologia da vida das crianças, pois existem ferramentas de IA que podem auxiliar nos estudos, inclusive em casos de TDAH, ajudando na organização de tarefas.
“Esses recursos podem apoiar o aprendizado, desde que usados como ferramenta de apoio e não como substituto do esforço da criança”, explica Isadora.
Por fim, um recado simples e decisivo das duas profissionais: a tecnologia pode ser uma aliada, desde que mediada por adultos conscientes.
“Os pais precisam ensinar o uso, não apenas permitir o acesso”, resume Maria Alice Carneiro.
Isadora Fonseca complementa: “A criança aprende pelo olhar do outro. Se o adulto conversa e impõe limites coerentes, ela vai entender que o digital faz parte da vida, mas não substitui a realidade”.

há 3 meses
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