Crédito e diversificação são chaves para navegar a volatilidade, aponta Lumina

há 2 meses 27
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Há boas oportunidades no cenário atual, especialmente no crédito e em ativos alternativos, desde que o investidor esteja atento à relação entre risco e retorno. “O investidor precisa ficar atento à alocação de capital e se está sendo devidamente compensado pelo risco que assume em cada classe de ativo”, afirma Fernando Chican, sócio-fundador da Lumina Capital, em conversa com o InfoMoney.

Ele alerta que muitos produtos isentos, como os incentivados, vêm apresentando remuneração comprimida, o que exige uma análise criteriosa. Para o gestor, a diversificação — tanto entre classes de ativos quanto em diferentes geografias — é fundamental diante das incertezas do mercado.

Há um grande desafio para o investidor brasileiro hoje, na avaliação do executivo, em manter disciplina e visão de longo prazo em meio a um ambiente de volatilidade crescente, marcado por incertezas fiscais e políticas.

Chican observa que períodos eleitorais e mudanças regulatórias costumam gerar movimentos especulativos que levam a decisões precipitadas. Por isso, segundo ele, o essencial é ter uma estratégia de alocação consistente, “pensada para os próximos 5, 10 ou 20 anos, e não para daqui 6 ou 12 meses”.

Com cerca de US$ 2,5 bilhões sob gestão, a Lumina Investimentos é uma gestora jovem, fundada há cerca de quatro anos, que se destacou na primeira edição da Premiação Outliers InfoMoney. A casa foi eleita Gestora Revelação na premiação que reconheceu os destaques do setor de investimentos no país em 16 categorias.

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InfoMoney: Para começar, queria que você contasse um pouco sobre a trajetória da Lumina Capital, desde a fundação até os dias atuais, e em quais verticais vocês atuam.

Fernando Chican: A Lumina é uma gestora relativamente jovem. Começamos há cerca de quatro anos. A nossa história começou com o meu sócio, que é o CEO da Lumina, o Daniel Goldberg. Antes de fundar a gestora conosco, ele liderou, por 11 anos, os investimentos de um hedge fund americano bem grande aqui na América Latina. Era sócio global da firma e membro do comitê de investimentos.

Em 2021, depois de bastante reflexão, o Daniel decidiu construir uma nova gestora, que seguiria uma filosofia de investimentos parecida com a que ele já praticava, mas com mais liberdade para buscar oportunidades excepcionais – aquelas que muitas vezes não são possíveis em fundos muito grandes, que gerem dezenas de bilhões de dólares.

Nesse contexto, ele me convidou, junto com outros sócios fundadores, para montar a Lumina. Desde então, estamos crescendo e executando nossa estratégia. Hoje, gerimos aproximadamente US$ 2,5 bilhões, com um time experiente e multidisciplinar, investindo globalmente — no Brasil, na América Latina e também fora da região.

A Lumina tem uma abordagem simples: apenas uma estratégia e um fundo principal, que é o veículo por meio do qual executamos toda a nossa atuação. Nosso objetivo é entregar aos investidores ótimos retornos ajustados ao risco, mas, principalmente, retornos descorrelacionados do mercado.

Basicamente, temos três frentes principais de investimento. A primeira são as soluções de capital, nas quais apoiamos companhias em projetos transformacionais — como aquisições, expansões ou situações de liquidez mais apertada. Oferecemos soluções estruturadas de capital, muitas vezes indisponíveis nos mercados tradicionais de financiamento, como o bancário ou de capitais.

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A segunda frente são os títulos deslocados. Quando ativos de dívida ou ações passam a negociar a preços substancialmente abaixo de seu valor intrínseco, entramos para prover liquidez em momentos de ineficiência de mercado, comprando esses títulos. Isso pode acontecer em deslocamentos mais amplos ou específicos de uma companhia ou setor.

Por fim, temos a frente de claims, que envolve comprar direitos que gerarão caixa no futuro — desde litígios e precatórios até royalties ou direitos musicais. O importante é que sejam ativos com valor estimável e riscos que possamos avaliar.

Nosso diferencial é ter uma estrutura de fundos paciente, com capital de longo prazo — fundos de 10 anos — que nos permite investir sem preocupação com resgates ou marcações frequentes de cota. Além disso, temos flexibilidade de mandato, podendo investir em ações, dívida, debêntures ou estruturas híbridas, o que amplia nossa capacidade de oferecer soluções sob medida para as empresas. Essa combinação de capital paciente e mandato flexível é o que nos permite ser criativos e ágeis, gerando retornos em excesso para o risco que assumimos.

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IM: Quais são as ambições estratégicas da Lumina para os próximos anos? Vocês pensam em expandir a estratégia ou criar novos produtos?

FC: Não temos a ambição de criar novos produtos ou verticais. Acreditamos que a forma como investimos — com um grande pool de capital que persegue as melhores oportunidades a cada momento — é a maneira mais eficaz de gerar retornos consistentes para os cotistas.

O que buscamos é identificar nichos e subestratégias interessantes dentro dessa grande estratégia. Nosso mandato é global, então estamos sempre atentos às geografias e setores que oferecem boas oportunidades, seja dentro ou fora da América Latina. Também pensamos em quais pessoas trazer para o time para explorar esses nichos, criando novas competências internas.

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Ao longo dos anos, fortalecemos o time com essa visão, trazendo profissionais multidisciplinares — advogados, investidores e especialistas de diferentes áreas — e vamos continuar fazendo isso para ampliar nossa capacidade de transitar entre mais setores e oportunidades.

IM: E no campo da governança? Quais práticas vocês adotam e o que se destaca nesse sentido?

FC: Nosso processo de investimento é muito rigoroso e segue ritos de governança bem definidos. Cada transação é originada e executada por um dos sócios, junto com o time responsável, que precisa buscar aprovação do comitê de investimentos antes de executar qualquer transação.

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Esse comitê é formado por quatro sócios e se reúne com antecedência mínima de dois dias. O time apresenta um memorando de investimento — geralmente entre 50 e 100 páginas — detalhando todos os aspectos da operação: tese, riscos, mitigantes, projeções e cenários.

Para ser aprovado, o investimento precisa do aval da maioria do comitê e do CIO. Muitas vezes, o debate é intenso e requer reuniões de follow-up até se chegar a uma decisão final. Além da análise econômica, há um foco grande nos aspectos jurídicos e de estruturação das transações, que garantem a governança de cada investimento.

Outro ponto relevante é a governança das próprias companhias nas quais investimos. Avaliamos a robustez dos processos e a qualidade da tomada de decisão. Se não tivermos convicção sobre a governança de uma empresa, preferimos não investir.

IM: A Lumina foi eleita Gestora Revelação na primeira edição da premiação Outliers InfoMoney. Na sua avaliação, o que levou a casa a se destacar nessa categoria?

FC: Ficamos muito lisonjeados com o prêmio, ainda mais considerando as gestoras incríveis que concorriam. Apesar de sermos uma casa jovem, conseguimos rapidamente captar fundos relevantes — hoje, cerca de US$ 2,5 bilhões — com investidores internacionais de altíssima qualidade, que nos deram um mandato flexível. Isso nos permitiu investir de forma relevante: temos alocado perto de US$ 1 bilhão por ano nas estratégias que mencionei.

IM: Considerando um cenário mais geral e esse perfil de atuação da Lumina, quais oportunidades vocês enxergam para o investidor no momento atual? Qual a dica para esse investidor?

FC: Nós não temos fundos abertos para captação contínua. Trabalhamos com o modelo de levantar o fundo, investir o capital e, só depois de concluído o ciclo, abrir um novo. Hoje estamos investindo o nosso segundo fundo, e, se algum momento, abrirmos o terceiro, será uma estratégia interessante para a nossa região da América Latina.

Um ponto de atenção que eu destacaria aos investidores é observar se estão sendo devidamente compensados pelo risco que assumem em cada classe de ativo.

Por exemplo, vimos um grande fluxo de capital para ativos incentivados, atraídos pelo benefício fiscal, mas que muitas vezes não oferecem retornos adequados ao risco assumido. É preciso cuidado para não entrar em ativos que parecem seguros, mas que pagam pouco pelo risco embutido.

Crédito, de modo geral, segue oferecendo boas oportunidades no Brasil — desde que com gestores experientes e com incentivos alinhados aos cotistas. E, além disso, acredito que os investidores devem buscar diversificação não apenas em classes de ativos, mas também geográfica, porque no Brasil temos tendência a concentrar os investimentos por aqui. Há oportunidades interessantes fora do país também que vale olhar com carinho.

IM: E quais pontos de atenção o investidor deve ter neste cenário macro, considerando juros, inflação e eleições?

FC: Nós não somos investidores macro, mas somos conscientes do macro, porque o ambiente econômico e regulatório afeta diretamente os setores e indústrias nas quais investimos.

De fato, teremos um período de volatilidade à frente, especialmente por conta das eleições. É natural que o mercado oscile conforme as expectativas sobre os candidatos. O importante é o investidor não tomar decisões baseadas nessa volatilidade.

É preciso evitar ser pró-cíclico — comprando quando os preços sobem e vendendo quando caem — e manter uma visão de longo prazo. As decisões devem considerar retornos em horizontes de 5, 10 ou 20 anos, não apenas os próximos 6 ou 12 meses.

Esses momentos turbulentos são justamente quando a disciplina e a diversificação se tornam mais importantes. Ter uma carteira diversificada em classes de ativos e geografias é essencial. O Brasil tem desafios fiscais relevantes, e concentrar todos os investimentos no país não parece uma boa decisão.

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