Correção ou bolha? Ações dos EUA reacendem temor de queda prolongada

há 2 meses 19
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O temor de que o rali das ações de tecnologia tenha ido longe demais voltou a dominar Wall Street nesta terça-feira (4). A correção que começou com a queda de Palantir e se espalhou por Nvidia, AMD e Amazon expôs a desconfiança de investidores diante de valuations que há meses desafiam a lógica dos fundamentos.

Os futuros do índice Nasdaq 100, que reúne as empresas mais fortes em IA, recuavam 1,41% por volta das 10h30 – no mesmo horário, a Palantir desabava 8,34%.

Os balanços seguem robustos, mas o mercado deixou de premiar resultados fortes. Segundo o Goldman Sachs, cerca de 70% das empresas do S&P 500 já divulgaram lucros, e 64% superaram as estimativas, um desempenho acima da média histórica. Ainda assim, as ações que bateram projeções subiram apenas 0,3% em média, bem abaixo do ganho típico de quase 1%. “O mercado deixou a barra mais alta sem avisar”, avaliou o estrategista Lee Coppersmith.

O ponto mais sensível está nas empresas de inteligência artificial. As big techs aumentaram em US$ 50 a 60 bilhões suas projeções de investimento em IA apenas neste ano, elevando o capex previsto para 2026 a níveis inéditos: US$ 120 bilhões na Meta, US$ 122 bilhões na Alphabet, US$ 140 bilhões na Microsoft e US$ 161 bilhões na Amazon, segundo estimativas do Goldman. “A narrativa da IA segue forte, mas o desafio agora é saber se esses gastos vão gerar retorno de capital proporcional até 2026”, escreveu Coppersmith.

Essa escalada também preocupa o mercado de crédito, onde o financiamento de projetos de IA substituiu as fusões e aquisições como principal fonte de emissão de dívida corporativa. Empresas de tecnologia, mídia e utilities já respondem por quase 30% de toda a emissão em dólares em 2025, o que reforça a dependência de alavancagem para sustentar o ciclo de investimento.

Economia e Fed não ajudam

O pano de fundo de política monetária ajuda a explicar parte da virada de humor. Na véspera, a gestora Ibiuna destacou em sua carta mensal que, embora o Federal Reserve tenha reduzido os juros em outubro, “a mudança de tom deixou incertos os próximos passos do comitê”. O shutdown do governo, que já dura 35 dias, limita a disponibilidade de dados econômicos e contribui para a postura mais cautelosa do banco central. Segundo a gestora, o ciclo de cortes de juros segue em curso, mas em ritmo mais prudente.

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Enquanto isso, surgem sinais de desgaste no consumo americano. Companhias de varejo e alimentação relatam orçamentos mais apertados e queda no fluxo de clientes, especialmente entre consumidores de renda média e jovens adultos. O contraste vem do consumo digital, que permanece mais resiliente entre clientes de maior renda, um retrato de um mercado cada vez mais desigual.

O que esperar agora?

No campo técnico, analistas como Rich Privorotsky, do Goldman Sachs, notam uma combinação de sinais técnicos negativos, combinados com queda das reservas bancárias abaixo de US$ 3 trilhões, fraqueza do consumo e piora do crédito privado. “Há muita coisa que não vem fazendo sentido há algum tempo”, afirmou.

As preocupações se intensificaram após declarações de líderes de grandes bancos. David Solomon, do Goldman Sachs, disse que é “provável vermos uma queda de 10% a 20% nas bolsas nos próximos 12 a 24 meses”. Ted Pick, do Morgan Stanley, chamou uma correção de dois dígitos de “parte saudável do ciclo”.

A tensão ganhou novos contornos nesta terça com a revelação de novas apostas de Michael Burry, gestor que previu a crise de 2008. Documentos da Scion Asset Management mostram que ele comprou opções de venda contra Nvidia e Palantir, poucos antes de publicar no X a mensagem: “às vezes, vemos bolhas”.

Mas outros grandes investidores rejeitam os cenários mais apocalípticos. A CEO da Ark Invest, Cathie Wood, afirmou na semana passada que o mercado de IA pode passar por uma correção, mas negou a ideia de que o setor esteja em uma bolha. “Nós vamos chegar a um momento no próximo ano em que a conversa vai mudar de taxas de juros mais baixas para taxas em alta”, disse a investidora, à CNBC.

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