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O vazamento de um vídeo do casamento da filha do contra-almirante Ali Shamkhani, um dos homens mais poderosos do Irã, expôs o contraste entre a vida privada da elite política e as regras rígidas impostas às mulheres comuns do país. O caso foi revelado pelo jornal The New York Times.
As imagens, divulgadas nas redes sociais no fim de semana, mostram convidadas sem o hijab obrigatório e usando vestidos ocidentais, inclusive a noiva, conduzida ao altar pelo pai em um modelo decotado e sem mangas, em cerimônia luxuosa realizada em Teerã.
O episódio gerou revolta pública, pedidos de renúncia e críticas tanto de reformistas quanto de conservadores, que viram na cena um símbolo da hipocrisia do regime.
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Escândalo sem precedentes
Shamkhani, de 68 anos, é um dos principais assessores de segurança do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e até julho era secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional — órgão central do aparato militar e político iraniano.
Responsável por supervisionar as negociações nucleares com os Estados Unidos e a repressão a protestos internos, ele foi peça-chave na imposição das leis de vestimenta e conduta feminina que se tornaram símbolo do autoritarismo iraniano.
O contraste entre sua imagem pública e o comportamento de sua família foi imediato. A imprensa reformista estampou sua foto nas capas dos jornais. “Soterrado sob um escândalo”, escreveu o diário Shargh em manchete de primeira página.
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Analistas e veteranos de guerra pediram que ele deixe os cargos públicos e faça um pedido de desculpas à população.
“Os próprios oficiais do regime não acreditam nas leis que defendem. Querem apenas tornar a vida das pessoas miserável”, criticou o jornalista Amir Hossein Mosalla nas redes sociais.
Figura central do regime
A crise ocorre em torno de uma figura historicamente influente. Shamkhani é ex-ministro da Defesa, ex-comandante naval e atual representante do aiatolá Khamenei no recém-criado Conselho de Defesa Nacional.
Em 2020, foi sancionado pelos Estados Unidos, acusado de enriquecer durante o regime de sanções por meio de empresas familiares ligadas ao transporte marítimo de petróleo iraniano e russo para a China.
Durante a revolta popular de 2022, desencadeada pela morte de Mahsa Amini sob custódia da “polícia da moralidade”, Shamkhani teria orientado a repressão.
Segundo relatos de parlamentares, quando questionado sobre como lidar com as manifestações, respondeu: “Vamos atacá-los até que voltem para casa.” Centenas de pessoas morreram naquelas semanas, muitas delas mulheres jovens.
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Silêncio oficial
Em meio à pressão, Shamkhani reagiu com ironia. “Bastardos, ainda estou vivo!”, escreveu no X (ex-Twitter), em sua primeira manifestação pública sobre o vídeo. A frase, repetida em aparições recentes, foi vista como tentativa de desafiar as críticas e reafirmar prestígio dentro do regime.
A agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, reconheceu que “o estilo de vida dos funcionários deve ser defensável”, mas classificou a divulgação do vídeo como “antiética”. Mesmo assim, o episódio abriu fissuras dentro da estrutura política iraniana, revelando um crescente incômodo com os privilégios e excessos da elite estatal em meio a uma economia em colapso e a uma repressão sem precedentes aos direitos das mulheres.

há 2 meses
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