Big techs sob risco: Morada Capital vê valuations esticados pela euforia da IA

há 2 meses 22
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O avanço das big techs impulsionado pela inteligência artificial tem despertado entusiasmo entre investidores, mas também preocupação com o grau de concentração do mercado americano.

Para Alex Gonçalves e Murilo Arruda, sócios e gestores da Morada Capital, embora o setor de tecnologia viva um momento de geração real de lucro — diferente da bolha da internet nos anos 2000 —, a euforia pode estar levando valuations a níveis difíceis de sustentar.

“Quanto mais esticado o negócio está em relação ao seu crescimento histórico, mais o otimismo dá lugar ao pessimismo”, disse Arruda.

Segundo ele, a Morada adota uma estratégia que privilegia empresas com volatilidade controlada, entre 10% e 12%, o que, no Brasil, se mostra um desafio adicional diante de uma taxa de juros ainda alta.

“Não dá para pedir ao investidor local que aceite uma volatilidade de 20% ou 25% quando ele dobra o capital em seis anos com o CDI e risco zero”, completou.

Gonçalves destacou que o investidor brasileiro tem uma relação emocional com o mercado doméstico e dificuldade em diversificar globalmente.

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“Poucos brasileiros investem no S&P 500. Aqui, a cultura ainda é esperar a Bovespa virar a esquina e voltar”, observou.

Para ele, levar o investidor a entender o efeito composto dos retornos em dólares é parte essencial da proposta da gestora.

Inteligência artificial e a nova euforia do mercado

O tema transversal do episódio do Stock Pickers, comandado por Lucas Collazo, foi o impacto da inteligência artificial nas bolsas globais. Collazo provocou os gestores: “Se a IA é tão revolucionária, por que não vender tudo e investir só nisso?”. Gonçalves respondeu que o maior risco de curto prazo é a volatilidade das ações, enquanto o maior risco de longo prazo é não carregá-las. “A arte da gestão é combinar ideias monopolistas com controle de risco. O problema é quando a volatilidade inviabiliza a alocação”, disse.

Ele citou o caso da Tesla (TSLA34), de Elon Musk: “Temos convicção nas inovações que vêm dali, mas uma volatilidade de 70% a 80% não cabe no portfólio”. Para o gestor, o cenário atual difere da bolha das pontocom justamente porque as grandes empresas de tecnologia hoje têm lucro e modelos de negócio comprovados.

“Na virada do milênio, eram companhias de garagem. Hoje, são conglomerados globais com geração de caixa e domínio de mercado”

A concentração, porém, levanta outras preocupações. “O nível de concentração do S&P 500 é o maior da história, e quanto mais concentrado o setor, maior tende a ser a rentabilidade. Mas isso também torna o sistema mais vulnerável”, alertou Gonçalves. Ele citou ainda o risco regulatório, especialmente sobre empresas como o Google, que enfrenta ações antitruste nos EUA.

As big techs são uma bolha?

Arruda lembrou que há mais de uma década o mercado rotula as empresas de tecnologia como uma bolha. “A Apple negociava a 12 vezes lucro e já diziam que era bolha. Hoje continua sendo acusada de bolha, mas segue crescendo e gerando resultado”, disse.

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Segundo ele, o S&P 500 está mais caro porque ficou mais qualificado. “O índice ficou mais caro não porque perdeu fundamento, mas porque a qualidade das empresas aumentou. A concentração está justamente onde o lucro está”, afirmou, citando estudo de Michael Semblast, CIO da JP Morgan Asset Management, que demonstra que as dez maiores companhias respondem pela maior parte do lucro do índice.

Para Arruda (NVDC34), a NVIDIA simboliza esse novo momento. “Ela pode estar cara, mas não é uma bolha. A receita está ali, o lucro está ali. Diferente dos anos 2000, agora existe demanda real para a tecnologia — e ela é maior do que a oferta”, avaliou. O gestor lembrou que até Sam Altman, CEO da OpenAI, admitiu recentemente que o ChatGPT enfrenta limites de capacidade devido ao consumo de energia.

Brasil ainda desafia a paciência do investidor

Quando a conversa voltou ao cenário doméstico, Murilo Arruda foi direto: “O Brasil exige disciplina e paciência”. Segundo ele, em uma análise de longo prazo, são poucas as ações que superam consistentemente o CDI.

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“Se pegarmos uma janela ampla, não passa de 20 ações que batem o CDI com reinvestimento de dividendos. O investidor precisa aceitar isso ou continuará acreditando que ‘dessa vez vai”

O gestor também fez uma crítica à mentalidade cíclica do mercado local. “O investidor só entra quando o juro está baixo, mas quando isso acontece, os preços já embutem a expectativa de melhora. Para ter retorno real, é preciso investir de forma anticíclica”, explicou.

Para Gonçalves e Arruda, a principal lição é que, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, investir exige método, paciência e repetição. “O mercado americano demanda disciplina e aprimoramento constante dos processos. Não é sobre prever o próximo cavalo vencedor, mas sobre entender onde o capital está gerando valor de forma consistente”, concluiu Arruda.

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