Argentina desponta no radar global com potencial de valorização histórica

há 2 meses 19
ANUNCIE AQUI

Enquanto o mercado brasileiro enxerga oportunidades internas, investidores internacionais voltam seus olhos para a Argentina. “É curioso”, observou o gestor Paolo Di Sora, fundador da RPS Capital, ao comentar o contraste entre a percepção local e externa.

“Aqui dentro, a sensação é de que o Brasil virou novamente a bola da vez. Lá fora, a conversa é outra: o vizinho que fala espanhol é o queridinho do mercado.”

Segundo Di Sora, a Argentina é hoje “o investimento mais comentado lá fora sob a perspectiva de retorno”.

O gestor acredita que o país vive um momento único, com ativos muito abaixo do valor justo e potencial de multiplicar o capital investido “por dez ou até quinze vezes”.

Para ele, trata-se de uma das oportunidades mais expressivas de sua carreira.

“Eu acertei uns dois ou três grandes movimentos em 25 anos de gestão. Tenho convicção de que esse case argentino vai ser o que vai me fazer aposentar de vez”

O episódio foi tema do podcast Stock Pickers, gravado em 1º de julho deste ano, apresentado por Lucas Collazo, que recebeu Di Sora para destrinchar a tese da RPS Capital sobre o potencial de valorização da economia argentina sob o governo Javier Milei.

Continua depois da publicidade

O “plano real” dos hermanos

Comparando o cenário atual à história recente do Brasil, Di Sora afirma que a Argentina vive agora o que seria “seu próprio plano real”. Segundo ele, o país atravessa uma transformação estrutural semelhante à que o Brasil experimentou nos anos 1990, após décadas de instabilidade.

“O que a gente está vendo lá é um fundamento muito bacana, com preços extremamente fora do lugar. É como comprar o Brasil de 1998 com 30% de desconto”, explicou. A diferença, diz o gestor, está na base econômica:

“A Argentina tem uma estrutura de PIB, crédito, varejo, setor elétrico e óleo e gás equivalente ao Brasil pré-Plano Real, pronta para ser explorada”

Em sua visão, o país vizinho é “estruturalmente mais preparado que o Brasil” em diversos aspectos, como educação e institucionalidade. “Falo isso com pesar, mas é verdade: a Argentina é mais estruturada institucionalmente do que nós, e isso faz diferença na atração de investimentos.”

Um dos pontos centrais da tese de investimento da RPS é a agenda econômica de Javier Milei. Desde a eleição do presidente ultraliberal, em 2023, a Argentina iniciou uma guinada de austeridade fiscal e desregulamentação que vem surpreendendo os mercados.

“O país viveu seu plano Collor com o Macri e agora está vivendo o plano Real com o Milei — e com apoio popular, o que é o mais impressionante”, destacou Di Sora. O gestor observa que Milei está implementando medidas duras, mas com aceitação social.

“Ele prometeu que faria, foi eleito para isso e está cumprindo. Não houve estelionato eleitoral”

Mesmo após reajustes de tarifas públicas de até 600%, o presidente mantém índices elevados de popularidade. “A sociedade entendeu que era preciso acabar com o populismo”, disse.

Continua depois da publicidade

O resultado aparece nos números: em apenas um ano, o déficit primário de 2% do PIB foi revertido para um superávit de 1,7%. “Um ajuste de quatro pontos do PIB em 12 meses, algo impensável em países emergentes.”

Austeridade e reformas profundas

Entre as medidas mais duras adotadas por Milei, Di Sora destaca o corte de 40 a 50 mil servidores públicos, o equivalente a 250 mil no Brasil. “A mentalidade libertária dele é simples: diminuir o tamanho do Estado para reduzir a carga tributária e aumentar o PIB potencial”, afirmou.

Hoje, a Argentina tem carga tributária de 27,8% do PIB — bem menor que a brasileira, de cerca de 33%. E, ao contrário do Brasil, já registra superávit.

Continua depois da publicidade

“É um contraste gritante. A Argentina arrecada menos, gasta melhor e está no azul”

O ponto fraco da tese, admite o gestor, é a composição da dívida. Embora o endividamento líquido argentino (41% do PIB) seja menor que o brasileiro (62%), cerca de 70% está em dólares.

“Esse é o calcanhar de Aquiles. Mas, se o país conseguir atrair US$ 20 bilhões por ano em investimento estrangeiro direto, vai atravessar essa montanha com tranquilidade e virar investment grade rapidamente.”

A aposta na abertura e na desburocratização

O otimismo de Di Sora também se apoia na agenda de desregulamentação. Em 2024, o Congresso argentino aprovou a chamada “Lei de Bases”, que alterou mais de 300 artigos da Constituição e abriu espaço para uma ampla revisão do ambiente de negócios.

Continua depois da publicidade

“A Argentina tinha 129 impostos e regulava até o preço do mate. Agora está passando por uma faxina institucional.”

O movimento é liderado por um ex-presidente do Banco Central, apelidado de “Eduardo Mãos de Tesoura”, responsável pelo recém-criado Ministério da Desburocratização. “É o mesmo caminho que o Brasil percorreu nos anos 1990”, afirmou Di Sora.

A expectativa é que o país volte a atrair de 2% a 3% do PIB em investimentos diretos — algo que já ocorreu em períodos anteriores. Além disso, o acordo com o FMI garantiu US$ 32 bilhões em reservas e abriu o câmbio, permitindo livre movimentação de capital estrangeiro.

Continua depois da publicidade

De volta ao mapa dos emergentes

Atualmente fora dos principais índices globais de ações, a Argentina pode ser reclassificada pelo MSCI como mercado emergente em 2027, o que abriria a porta para a entrada de fundos passivos bilionários. “Hoje o país é off-index, ninguém é obrigado a investir lá. Mas isso vai mudar”, prevê Di Sora.

Com fundamentos em melhora e reformas em curso, o gestor acredita que o país reúne as condições para uma década de forte crescimento.

“Eles têm educação, mão de obra qualificada, energia barata e um setor de tecnologia pujante. É um país pronto para ser reconstruído.”

A analogia final resume a convicção do investidor: “A Argentina está no ponto em que o Brasil estava antes do Plano Real. Só que, desta vez, com uma sociedade mais consciente, um governo liberal e uma economia com potencial de multiplicar por dez.”

Ler artigo completo