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Murilo Sampaio estava de pé em um barco pintado de camuflado no rio Solimões, na Amazônia, observando o horizonte em busca de contrabandistas, quando três barcaças de petróleo surgiram à distância.
O chefe da Polícia Militar havia recebido ordens para inspecionar todas as embarcações que desciam o Solimões — nome dado ao trecho superior do rio Amazonas em território brasileiro. Ao conferir a documentação do comboio, Sampaio e sua equipe descobriram a origem: o maior campo de petróleo do Peru, operado pela PetroTal Corp., sediada em Houston.
Quando os cães farejadores subiram a bordo, pararam diante de um compartimento lacrado.
“Estava tudo certo até ali”, disse Sampaio em entrevista. “Mas quando os cães entraram, conseguiram identificar o cheiro.”
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Os animais localizaram mais de meia tonelada de cocaína, levando à prisão dos seis tripulantes das barcaças. Como os processos judiciais seguem sob sigilo, ainda não está claro se algum deles foi condenado.
Uma nova rota do tráfico
Na Amazônia brasileira, apreensões como a que Sampaio liderou em 16 de abril se tornaram cada vez mais comuns. Bilhões de dólares em investimentos transformaram uma região antes isolada em um importante corredor para exportação de grãos e de um tipo de petróleo peruano valorizado por refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos.
Essa transformação trouxe mais terminais fluviais, maior tráfego de barcaças — e mais oportunidades para o contrabando de cocaína. Dados do governo do Amazonas mostram que as apreensões da droga na região praticamente triplicaram em dois anos, após as autoridades passarem a usar embarcações camufladas de múltiplos andares, conhecidas como “bases fluviais”, para fiscalizar navios e balsas.
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A Polícia Militar do Amazonas interceptou 15 toneladas do entorpecente no ano passado — carga que, segundo estimativas da ONU de 2021, teria valor de rua de cerca de US$ 1,8 bilhão nos Estados Unidos.
Ainda assim, esse volume representa apenas uma fração do total que desce os rios da região, de acordo com entrevistas com militares, agentes de segurança e pesquisadores.
Navios de carga navegam pelo Rio Negro perto de Manaus, Brasil. Fotógrafo: Dado Galdieri/BloombergO avanço do comércio ilegal está colocando o Brasil em rota de colisão com a política antidrogas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — uma campanha que incluiu ataques militares a embarcações suspeitas e ameaças de suspender ajuda à Colômbia.
O aumento do tráfico ameaça desfazer a frágil reaproximação entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A trégua vinha desde que o governo americano impôs tarifas sobre produtos brasileiros, acusando Brasília de perseguir injustamente o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por planejar um golpe de Estado.
A administração Trump poderia facilmente “enquadrar as atividades dos grupos criminosos organizados como parte de uma estratégia mais ampla de retaliação contra o Brasil”, afirmou Thiago Amâncio, analista sênior da consultoria Control Risks, especializada em crime organizado. “Historicamente, os EUA usaram a narrativa da guerra às drogas na América Latina como instrumento político — e isso fica especialmente claro agora, com Trump.”
Em resposta por e-mail, um porta-voz do Departamento de Estado americano disse que os EUA “apoiam as forças de segurança brasileiras para que possam detectar e interceptar de forma mais eficaz essas atividades ilícitas ao longo das principais hidrovias e portos marítimos do país, em linha com a cooperação de segurança mantida com outros governos parceiros do Cone Sul.”
Vinicius Almeida, secretário de segurança pública do estado, no Centro Internacional de Cooperação Policial em Manaus, onde autoridades policiais brasileiras colaboram com seus colegas de países vizinhos. Fotógrafo: Dado Galdieri/BloombergTráfico avança às vésperas da COP30
Enquanto o Brasil enfrenta os impactos sociais e ambientais do avanço do tráfico de cocaína na Amazônia, o país também se prepara para sediar a maior conferência climática do mundo. A COP30, conferência da ONU sobre mudanças climáticas, está marcada para novembro em Belém, próximo à foz do rio Amazonas.
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No centro do comércio de cocaína na região está uma rede de rios conhecida como Rota do Solimões. De laboratórios clandestinos na Colômbia e no Peru, a droga segue rumo ao leste pelos afluentes do Solimões até portos brasileiros no Atlântico, e de lá para mercados da Europa e da Ásia.
“Estamos falando de centenas de rios”, disse João Maciel Rosa, tenente da Polícia Militar e autor do livro A Rota do Solimões: o tráfico de drogas na Amazônia. “Apenas entre 3% e 5% das áreas de fronteira entre o Brasil e os países produtores de cocaína têm presença policial.”
Um dos dois maiores grupos criminosos do país, o Comando Vermelho, controla grande parte da Rota do Solimões, que se tornou uma das principais fontes de cocaína da facção, segundo autoridades e pesquisadores. Em 28 de outubro, a polícia realizou no Rio de Janeiro — base do grupo — a operação mais letal até hoje contra o Comando Vermelho, antes de eventos relacionados à COP30.
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A distância entre a fronteira colombiana e Manaus, a maior cidade da Amazônia brasileira, é quase a mesma que separa Nova York de Chicago. Para percorrer esse trajeto, os contrabandistas usam lanchas armadas, embarcações comerciais e até frotas de canoas, além de semissubmersíveis improvisados, conhecidos como “narco-submarinos”, que às vezes encalham em bancos de areia durante períodos de seca.
“Entramos em ação quando eles ficam presos”, disse Marcus Vinícius Oliveira de Almeida, secretário de Segurança Pública do Amazonas. “Eles pedem ajuda a barcos menores para descarregar a droga.”
Homens transportam caixas de madeira no porto de Manaus, Brasil, em 24 de setembro de 2025. Os cais são um fluxo constante de mercadorias e pessoas, condições que os traficantes utilizam para camuflar carregamentos de drogas com destino ao leste. (Foto da Bloomberg/Dado Galdieri)Agronegócio facilita rotas fluviais
O crescimento do agronegócio brasileiro tem facilitado o trabalho dos traficantes. As exportações de grãos dos estados amazônicos quase quadruplicaram na última década, impulsionadas pela expansão da infraestrutura logística e pela conversão de áreas antes dedicadas à pecuária, segundo a Associação de Terminais Portuários Privados. A demanda global por soja aumentou 38% no mesmo período, de acordo com dados da Bloomberg.
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Esse aumento do comércio abre novas rotas para o transporte de drogas e dificulta o trabalho das autoridades em inspecionar todas as embarcações que descem os rios. Assim como ocorreu com a barcaça de petróleo peruano interceptada pela equipe de Sampaio, contrabandistas têm infiltrado cocaína em navios de exportação de soja nos portos onde o Amazonas encontra o Atlântico.
Em outubro do ano passado, a Polícia Federal apreendeu 500 quilos de cocaína em um porto no Maranhão. A droga estava escondida em um navio graneleiro operado pela Polish Steamship Company (Polsteam), que aguardava para embarcar soja antes de seguir para a Espanha.
A Polsteam não respondeu aos pedidos de comentário. À época, a empresa disse à imprensa polonesa que a própria tripulação havia encontrado os entorpecentes e alertado a polícia brasileira.
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A Ponte Rio Negro é um marco que conecta Manaus a Iranduba. Ela também atravessa uma rota de tráfico que transformou os rios amazônicos em verdadeiras rodovias fluviais para o transporte de cocaína proveniente do Peru e da Colômbia. Fotógrafo: Dado Galdieri/BloombergPetróleo amazônico sob suspeita
O transporte de petróleo também vem oferecendo novas oportunidades para esconder cocaína. No lado peruano da Amazônia, a PetroTal mais que triplicou a produção em seu campo de Bretaña nos últimos cinco anos, alcançando cerca de 20 mil barris por dia.
A empresa afirma vender quase toda a produção para a Novum Energy Trading Corp., companhia de logística e comércio de energia com escritório em Houston — um arranjo que, segundo a PetroTal, permite evitar o uso do precário sistema de dutos do Peru até a costa do Pacífico.
A Novum costuma fretar embarcações de outras empresas para transportar o petróleo, segundo a polícia. A dona da barcaça onde a cocaína foi apreendida é a Navetrans, empresa brasileira de logística.
As barcaças seguem pelo Amazonas até Manaus, onde o petróleo é transferido para navios maiores e enviado à região do Atlântico, conforme relatório da PetroTal. No primeiro semestre de 2025, 89% da produção da empresa foi exportada pelo Brasil, e o restante enviado à refinaria de Iquitos, no Peru.
De acordo com a consultoria Kpler, a Valero Energy Corp. e a Marathon Petroleum Corp. receberam carregamentos de petróleo de Bretaña nos Estados Unidos nos últimos dois anos.
As empresas não responderam aos pedidos de comentário.
A PetroTal afirmou manter “um sistema de segurança abrangente, alinhado às orientações de autoridades locais e internacionais”.
A companhia declarou operar “com os mais altos padrões de integridade, segurança e conformidade com todas as leis aplicáveis”.
A Novum Energy disse “manter tolerância zero a qualquer atividade ilegal em sua cadeia de suprimentos”, e que exige inspeções independentes e seguros internacionais de todas as empresas contratadas.
Não há indícios, segundo documentos e declarações oficiais, de que as empresas soubessem que a barcaça interceptada em 16 de abril estava sendo usada para contrabando. Pela lei brasileira, armadores não são automaticamente responsabilizados, desde que provem não ter conhecimento do crime.
A apreensão de abril foi ao menos a terceira envolvendo tentativas de usar embarques de petróleo de Bretaña para introduzir cocaína no Brasil. Em junho do ano passado, cerca de 1,7 tonelada de cocaína e maconha foi apreendida em uma barcaça vinda do campo peruano, e nove pessoas foram presas.
Em novembro, mais de 600 quilos foram confiscados em outra embarcação com a mesma origem.
“Temos intensificado as verificações em barcaças de transporte de combustível”, disse Almeida.
A pichação “CV” indica que o território está sob o controle do Comando Vermelho, uma gangue que domina trechos da rota do tráfico de drogas no rio Solimões. Fotógrafo: Dado Galdieri/BloombergAuge do contrabando e pressão diplomática
Por ser em grande parte clandestino, o comércio mundial de drogas é difícil de mensurar. Ainda assim, todos os sinais apontam para uma era de ouro para os contrabandistas no Brasil.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as apreensões de cocaína aumentaram quase cinco vezes entre 2015 e 2023. No cenário global, o consumo e a produção da droga continuam batendo recordes, segundo o UNODC.
No início deste ano, o governo Lula resistiu à pressão dos EUA para classificar facções criminosas como terroristas, o que daria à Casa Branca margem para impor sanções a empresas associadas.
A administração Trump também bombardeou embarcações venezuelanas suspeitas de tráfico, retirou a Colômbia da lista de parceiros no combate aos cartéis e cogita instalar tropas no Equador, o que pode deslocar ainda mais o fluxo de drogas para a Amazônia brasileira.
Em Manaus, boa parte da cocaína é descarregada e enviada em contêineres da zona industrial. Uma fração abastece o mercado interno; o restante segue para portos no Atlântico. Os lucros são lavados em atividades como pecuária, garimpo e desmatamento ilegais, segundo Almeida.
O avanço do tráfico acende alertas sobre o risco de cartéis controlarem áreas da Amazônia, afirmou Rodrigo Soares, professor da Fundação Lemann no Insper.
“A preocupação é repetir o que ocorreu no norte do México e em certas regiões da Colômbia, onde grupos armados dominam grandes territórios”, disse.
As economias pesqueiras tradicionais coexistem com as atividades de transporte de cargas que tornam o distrito um ponto estratégico tanto para o comércio quanto para o tráfico. Fotógrafo: Dado Galdieri/BloombergO impacto nas comunidades amazônicas
Em áreas remotas da Amazônia, moradores relatam um aumento de crimes ligados ao tráfico.
Carauari, município às margens do rio Juruá habitado por povos indígenas e descendentes de seringueiros, passou a integrar a Rota do Solimões no início do ano passado, segundo o líder comunitário Manoel Cunha.
Facções começaram a aparecer em festas e eventos públicos para atrair jovens ao consumo. Agora, usuários invadem tanques de peixes e criadouros de tartarugas para furtar os animais e vendê-los. Quem tenta denunciar recebe ameaças de morte, disse Cunha.
“Isso está destruindo a comunidade”, afirmou. “Lá, não existe polícia civil, não existe Ministério Público, não existe Justiça formal.”
Em Belém, cidade de 1,3 milhão de habitantes, autoridades reforçam a segurança e mapeiam a presença de facções antes da COP30. O governo deve divulgar durante a conferência um relatório sobre as comunidades mais vulneráveis ao crime organizado, disse Marta Machado, secretária nacional de Políticas sobre Drogas.
“A situação é muito grave nas regiões de fronteira”, afirmou. “Belém também é um grande centro, um ponto de conexão importante, que envolve inclusive o tráfico aéreo de drogas.”
Os custos ambientais e o aumento do consumo
O narcotráfico também traz consequências ambientais severas. Laboratórios de refino na Colômbia e no Peru contaminam o lençol freático, e são necessários cerca de 300 litros de gasolina para produzir um quilo de cocaína, segundo o UNODC.
Os lucros financiam compra ilegal de terras, garimpo e desmatamento em áreas protegidas, além do tráfico de animais silvestres.
O Brasil é hoje o segundo maior consumidor mundial da droga, atrás apenas dos Estados Unidos. Parte da cocaína que percorre a Rota do Solimões abastece cidades amazônicas; o restante segue para os grandes centros do Sul e Sudeste.
Em Manaus, a droga é facilmente encontrada em bares e festas.
“Nosso maior desafio é o tamanho do estado”, disse Almeida, ao explicar a dificuldade de patrulhar uma fronteira florestal maior que a dos EUA com o México.
Mesmo com o aumento das operações, o Brasil não tem conseguido conter o tráfico. A repressão nas fronteiras com Paraguai e Colômbia empurrou ainda mais o fluxo para o coração da Amazônia.
Em junho, uma denúncia anônima levou à maior apreensão já registrada: 6,5 toneladas de cocaína e maconha. O confronto durou 40 minutos e deixou dois traficantes mortos, segundo a polícia.
“Não é possível vencer a guerra às drogas, nem tática nem operacionalmente”, afirmou Andrés Preciado, diretor de conflitos e segurança do centro de estudos colombiano FIP. “As evidências de cinco décadas mostram que o Estado nunca vence.”

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