Aduna vem ao Brasil para fomentar APIs abertas de rede

há 2 meses 19
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Anthony Bartolo, CEO da Aduna

Anthony Bartolo, CEO da Aduna, esteve no Brasil na semana passada para fechar o acordo de adesão das três maiores operadoras brasileiras à coalização. A Aduna é uma joint venture entre a Ericsson e diversas operadoras de telecomunicações globais que tem como propósito servir de ponto de troca de interface abertas (API) para acesso às redes das operadoras.

Trata-se de um movimento que está inserido em um contexto maior, discutido há muitos anos pelas empresas de telecomunicações, de começcar a tratar a rede como uma fonte de dados e informações que possam ser utilizadas por empresas de aplicações digitais. Há cerca de três anos, esse movimento começou a ganhar corpo e foi coordenado pela GSMA com o Open Gateway, que idealizou o conceito, e depois com a padronização trazida pela iniciativa Camara.

Nesta entrevista exclusiva, Bartolo conversa sobre a importância de tratar a rede de forma aberta por meio de APIs, as oportunidades aos operadores e, claro, o papel do Brasil nesse ecossistema global.

Samuel Possebon – Para começarmos, você poderia nos apresentar brevemente o que é a Aduna e qual o propósito da sua aliança?

Anthony Bartolo – A Aduna, cujo nome é uma palavra em Latim para "reunir-se" (coming together), foi estabelecida em 2024, mas concebida antes disso. Ela representa algo raro no setor de telecomunicações: a união das empresas. Foi construída por operadoras para operadoras, para agregar e acelerar informações através de APIs de rede, permitindo que desenvolvedores de todo o mundo explorem melhor o potencial pleno das redes. A missão é fornecer acesso escalável e amigável para desenvolvedores à inteligência de rede, por meio de uma única integração. A GSMA, junto com a Linux Foundation, fundou a Camara, que cria os padrões (standards) para essas APIs, garantindo que elas sejam adotáveis por todos os provedores de serviço.

Qual a importância da padronização dentro desse conceito?

Cada operadora tem a oportunidade – e não a obrigação – de compartilhar essa API. A operadora pode usá-la apenas dentro de um país ou abri-la para que qualquer pessoa ao redor do mundo a adote. Esse é o framework necessário para que a comunidade de operadoras se una, pois se você não tiver um padrão, não consegue escala. Se não tiver escala, não consegue um ecossistema.

Considerando a Open Gateway como o conceito de ambiente de API aberta, e a Camara como o padrão comum, a Aduna seria a plataforma de interconexão, onde todos se reúnem para cooperar e trocar experiências e APIs, ou um marketplace?

Sim, é um bom resumo, mas posso refinar. A Camara Open Gateway criou a estrutura, o framework para que cada operadora de visibilidade a suas capacidades inerentes à rede, as quais antes não podiam ser expostas, de forma regular. Os padrões para essas APIs são definidos pelo processo de padrões da Camara e, em seguida, expostos na plataforma Open Gateway. A Aduna é a plataforma, ou lugar que você pode acessar para obter acesso a essas APIs. Eu não a chamaria de "marketplace", mas sim de uma bolsa de troca. Todas as operadoras integram suas APIs nessa bolsa e os consumidores são a comunidade de desenvolvedores.

Qual é o modelo de negócios da Aduna?

A plataforma foi construída por operadoras para operadoras e elas queriam garantir que o valor não fosse dissipado em muitas camadas. A Aduna é uma camada muito fina que cobra apenas o suficiente para manter a plataforma funcionando e escalável. Caso contrário, 85% ou mais do valor volta para a operadora. As operadoras são as construtoras finais dessas capacidades e querem que esse valor não seja diluído por terceiros. O pagamento pela utilização das APIs é feito à Aduna, e ela fecha a transação com a operadora, facilitando a vida do desenvolvedor ao fornecer o menor atrito possível para acessar todas as operadoras.

No que diz respeito à integração técnica e ao desenvolvimento de software necessário, a Aduna oferece suporte ou as empresas usuárias devem se encarregar disso?

Nossos clientes são, na verdade, as plataformas agregadoras de desenvolvedores como os players de CPaaS (Communication Platform as a Service), hyperscalers, empresas de software ou provedores de aplicação. Eles geralmente atendem ao cliente final, adicionando o acesso às APIs de rede móvel Camara às suas próprias APIs tradicionais. Em vez de esses players de CPaaS irem a cada operadora, eles usam a plataforma Aduna, que já está pré-integrada com as operadoras.

Como você avalia o progresso global do Open Gateway e da Aduna especificamente?

Vemos de fato a criação de valor. Anunciamos a Aduna há um ano, em setembro, e finalizamos a transação há cerca de três meses. Começamos com 11 participantes no ecossistema e esse número mais que dobrou, chegando a 24, com outros 75 engajamentos em andamento. Cobrimos toda a América do Norte, e recentemente as três operadoras brasileiras anunciaram sua adesão, com o objetivo de estarmos comercialmente operacionais no Brasil até o final do ano. Na Europa, há grande impulso na Espanha, Alemanha, França e Holanda. Vemos também envolvimento no Oriente Médio e grande impulso na Ásia, com todas as operadoras japonesas, Malásia, Cingapura, Coreia, Austrália, Nova Zelândia e, claro, todas as operadoras da Índia. Essa onda de interesse em apenas 12 meses mostra que o ecossistema está realmente saudável.

O que está motivando essa movimentação rápida das telcos e empresas por trás do Open Gateway? É uma necessidade de novos negócios ou é a pressão do mercado?

Eu diria que há alguns aspectos. Uma delas é que alguns veem a oportunidade e o receio de ficar de fora de algo grande, especialmente em áreas aplicáveis como fraude e segurança. O segundo é a monetização. As operadoras gastaram, no total, provavelmente um trilhão de dólares construindo essas redes móveis, e é preciso haver monetização. Em terceiro lugar, ao reunir o ecossistema, as operadoras ganham insights e aprendem modelos de sucesso que podem ser aplicados em seus próprios mercados. Isso transforma o investimento em rede de uma aposta em um investimento probabilístico, solidificando o ciclo virtuoso de investimento, consumo por desenvolvedores e expansão da inovação.

O Brasil foi um dos primeiros países a adotar os padrões Open Gateway. Onde vocês se inserem nesse contexto?

Nosso anúncio aqui foi, na verdade, reunir todas as operadoras  e dar a elas a oportunidade de apresentar suas APIs em uma plataforma única para consumo da comunidade de desenvolvedores. O Brasil é reconhecido como um dos mercados de API no padrão Camara mais avançados do mundo, o que se deve, em grande parte, ao reconhecimento precoce de que a fraude é um foco primordial. Estamos colocando todas as APIs Camara em uma plataforma única e comum, o que permite acesso e alcance unificados para desenvolvedores e empresas, tanto local quanto globalmente. Isso também sinaliza liderança global, reforçando a posição do Brasil como líder inovador em mitigação de fraudes e autenticação.

Considerando a força do Brasil em seu sistema financeiro desenvolvido e em aplicações sociais, o que o Brasil está inovando que seria de interesse para outras telcos globais, posicionando o país como líder neste ambiente de API aberta?

Sem dúvida, é por isso que fiz questão de vir ao Brasil para solidificar essa posição. O Brasil democratiza onde algumas dessas inovações ocorrem, especialmente em áreas como fraude, onde o país lidera o caminho no combate a isso. Além disso, as APIs de rede não precisam substituir, mas ampliar soluções existentes. Elas podem ser usadas como um vetor em tempo real da rede para detecção de anomalias, aprimorando a prevenção de fraudes por meio do aprendizado contínuo dos padrões de uso. Outras áreas incluem automação preditiva, como ajustes de qualidade de serviço, e consciência de proximidade, que pode ser útil em emergências para alocar recursos com base em grandes concentrações de SIMs. O principal papel é desbloquear a inovação na borda da rede, permitindo que desenvolvedores criem as próximas grandes soluções.

No Brasil, além das três grandes operadoras que já fazem parte da Aduna, há espaço para operadoras regionais e MVNOs (operadoras móveis virtuais) se juntarem à coalizão?

Absolutamente. A Aduna está construindo um ecossistema, e permitimos que todos entrem. Não há discriminação. Os MVNOs são bem-vindos. Se os MVNOs se juntarem à plataforma, isso só beneficiará ainda mais os desenvolvedores, pois não haverá lacunas no assinante, aumentando o alcance. É do interesse do ecossistema que todos participem, e não há custo para aderir a este ecossistema.

As plataformas técnicas subjacentes das operadoras (Huawei, Ericsson, Nokia etc) são relevantes para a integração na Aduna?

É absolutamente irrelevante. Tudo o que as operadoras precisam fazer é expor essas APIs, e elas devem ser APIs padronizadas no padrão Camara, pois seguimos esses padrões. Contanto que sigam o padrão, a API pode ser disponibilizada na plataforma Aduna. Não nos importamos com a tecnologia subjacente.

Além de engajar as operadoras para abrirem suas APIs, como a Aduna trabalha na promoção e no engajamento dos clientes finais, ou seja, dos usuários finais das APIs (desenvolvedores)?

Essa é uma grande parte de nossa estratégia de mercado. Para manter as despesas baixas e o foco na plataforma, nós nos associamos com a comunidade CPaaS, a comunidade de hyperscalers, empresas de software e integradores de sistemas globais. Eles são nossos clientes, porque agregam as comunidades de desenvolvedores. Eles nutrem e gerenciam milhões de desenvolvedores, e é lá que ocorre a comunicação para familiarizá-los com esses tipos de APIs. Um desenvolvedor não acorda e diz "eu quero uma API de rede"; ele tem um problema e está procurando uma solução. Ele procura suas comunidades, que são servidas por esses parceiros.

Existe algum tipo de incentivo, capacitação ou programa permanente para preparar a força de trabalho, especialmente os desenvolvedores, para as APIs Camara e a Open Gateway?

Sim, a GSMA faz um trabalho razoável na comunicação sobre o que foi feito, onde eles estão e sobre casos de uso específicos. Você pode obter informações da Aduna, mas também pode procurar seu fornecedor de CPaaS e perguntar. Eles mostrarão o que estão fazendo e como complementam o que estão consumindo no lado da API de rede com suas APIs de CPaaS, porque uma API por si só não é uma solução, é um vetor ou um elemento em uma solução geral. Ser informado sobre eles já é metade da batalha.

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