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O mês de outubro foi marcante para o mercado brasileiro de telecomunicações. Além do encerramento do prazo para a regularização das outorgas do SCM, um divisor entre formalidade e informalidade no setor, a Anatel publicou o Panorama Econômico-Financeiro da Banda Larga Fixa, com dados referentes ao quarto trimestre de 2024.

Para quem mergulhou nos números, o retrato é fascinante e inquietante.
As pequenas prestadoras (PPPs) seguem responsáveis por 56,7% dos acessos de banda larga fixa no Brasil, frente a 43,3% das grandes operadoras.
Porém, essa liderança em base de clientes não se reflete na receita…
No período analisado, as grandes operadoras faturaram R$ 6,5 bilhões, contra R$ 6,4 bilhões das PPPs, praticamente uma divisão meio a meio (50,4% x 49,6%), sobre um total de R$ 12,9 bilhões de receita.
A diferença, contudo, aparece quando olhamos quem está bancando o investimento.
Do total de R$ 3,6 bilhões em CAPEX, R$ 2,4 bilhões (66,7%) vieram das pequenas prestadoras, enquanto as grandes investiram R$ 1,2 bilhão (33,3%).
Ou seja: as PPPs investiram o dobro das grandes em valores absolutos, exatos R$ 1,2 bilhão a mais mesmo gerando quase a mesma receita.
Na prática, isso significa que para cada real investido por uma grande operadora, as pequenas estão colocando dois.
Olhando pelo ângulo do ARPU, a discrepância continua.
O ARPU médio das grandes ficou em R$ 95,91, enquanto o das pequenas prestadoras foi de R$ 90,52 uma diferença de 5,9%, ou cerca de R$ 5,39 por assinante.
Essa diferença parece sutil, mas quando multiplicada por milhões de acessos, traduz um gap mensal de dezenas de milhões de reais, o suficiente para definir quem pode sustentar margens, reinvestir e competir com fôlego de longo prazo.
Esses quatro vetores: acessos, receita, investimento e ARPU formam um quadro claro: as pequenas prestadoras carregam a expansão da infraestrutura, mas não capturam na mesma proporção o retorno econômico.
Enquanto as grandes concentram eficiência, escala e estabilidade financeira, as PPPs sustentam o avanço da conectividade nacional com margens mais apertadas e riscos maiores.
Como é possível que um grupo de empresas que realiza 66,7% de todo o investimento em infraestrutura de banda larga fixa no país, e que responde por 56,7% de todos os acessos, ainda fique com menos da metade da receita (49,6%) e tenha um ARPU 5,9% menor que as grandes operadoras, o que equivale a R$ 5,39 a menos por cliente?
Essa equação é o retrato de uma assimetria estrutural.
Significa que, no Brasil, a conta de expandir a conectividade está sobre os ombros das prestadoras que mais investem, geram mais empregos locais e ocupam regiões onde o retorno financeiro é mais lento, mas que, paradoxalmente, recebem proporcionalmente menos da receita total do setor.
Em outras palavras: quem mais pavimenta a estrada, menos trafega sobre ela.
E essa conta, cedo ou tarde, cobra seu preço.
Nenhum setor se sustenta no longo prazo quando o incentivo econômico está invertido, quando o esforço para construir infraestrutura não se traduz em geração de valor, e quando a base da pirâmide carrega a maturidade de toda a cadeia.
Se o Brasil quer um mercado de banda larga realmente sustentável, não basta celebrar o crescimento dos acessos.
É preciso revisitar a conta entre investimento, retorno e política setorial, sob pena de transformarmos a grande história de expansão da conectividade em um caso clássico de desequilíbrio econômico.
Quem está investindo para conectar o Brasil e quem está colhendo o resultado disso?
Essa talvez seja a pergunta mais importante que o mercado precisará responder antes de entrar na próxima década.
José Felipe Ruppenthal é CEO da consultoria Telco Advisors e todo mês traz ao Tele.Síntese sua análise sobre o mercado de telecomunicações na coluna Etc. & Thal.

há 2 meses
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